23 de março de 2009

vigésimo quinto

Logo que o despertador recomeça a tocar às cinco e meia da manhẵ, torna-se difícil controlar a exclamaçẵo “ó meu deus, porquê?”, ainda que nẵo se acredite, à partida, numa entidade divina responsável pela existência própria. Apetece até ir na onda, montar-se a cavalo na fé, só para poder questionar-se assim. Ó amigo, porque me destinas tal sorte?? E entẵo faz-se luz e ocorre-nos onde está a verdadeira responsabilidade. Com alguma vergonha, calamos o bico – que nunca chegou a ser aberto porque o cérebro a essas horas é uma pasta mal definida que se limita a fazer funcionar os mecanismos mais básicos. A sobrevivência da casa-de-banho e de ruminar uma torrada empurrada esófago abaixo com chá. Lá fora a noite, ainda escura, e todos os cri-cri e croac-croac que a acompanham, nẵo se pode dizer que chamem por nós...

Trabalho de campo nẵo é passeio. É um privilégio sim, mas a verdade é que muitas vezes se paga com o corpo. A constância de dias e dias seguidos a trabalhar doze horas sem parar, ainda que com animais que se mexem pouco, pode dar-nos cabo do miolo. Compensa-se com esse acesso a lugares incríveis e ao vislumbre de vidas bem diferentes das nossas – falo dos monitos.

Na EBCo, em Corrientes, de onde agora escrevo, macacos-uivadores é coisa que nẵo falta. A cada dia estudamos um grupo diferente e a técnica passa por seguir um indivíduo ao longo das horas solares para registar o que ele faz. Tudo o que ele faz. Nẵo podemos perdê-lo de vista, a nẵo ser que precisemos de parar para comer ou “ir à casa-de-banho”. A Romina estuda relaçỡes de conflicto entre as progenitoras e as crias, pelo que nos concentramos a juntar dados comportamentais destes indivíduos. Alguém segue a cria, alguém segue a mẵe, e outras duas pessoas fazem o mesmo com outros dois animais. É interessante, a floresta é muito diferente da mata atlântica de Iguazu e o facto de haver muito pastoreio de vacas, acrescenta à curiosidade da situaçẵo. As zonas em que encontramos macacos sẵo fragmentos, ilhas verdes, no meio da pastagem. Sabe-se que os bichos podem atravessar de umas para as outras caminhando pelo solo, mas dizem é acontecimento raro.

Os homens que guardam as vacas e as juntam ao fim do dia, para as chamar e para se comunicarem entre si, soltam gritinhos agudos - uuuooo - que, à primeira vez ouvidos, parecem de brincadeira. Os investigadores adoptaram o grito, nẵo sei se para se por agregaçao cultural, se porque os acharam divertidos. E eu sinto-me um pouco ridícula trocando os sonoros op! de monero do cies pelos mais tontos uooo de monero da ebco.

O que acontece aqui e que gosto de ver é que há mais gente, com projectos de distintos temas, a trabalhar com os uivadores, do que encontrava em Iguazu. E há quem viva realmente na estaçẵo, dando um toque familiar ao lugar.

Como já os olhos vẵo fechando, acho que deixo mais dizeres para depois.

Aqui ficam umas poucas fotos. E o nome do cẵo negro é... Negro! Como nẵo haviamos de ficar amigos se lhe encontrei logo a graça??





5 comentários:

Aline Cortez disse...

Gosto muito do sapo !!! Tem um ar arguto. Faz-me lembrar a guerra das estrelas e o Paul McCartney (pum, pum, ...pum, pum,pum .... we all stand together). Besos de la vieja

João Esteves disse...

Também largado no mundo … algures deste mesmo lado do Atlântico, assaltou-me esta noite a memória de que outra exploradora portuguesa também “se queda por tierras de América del Sur”.

Aproveitei para ver (ler) o teu bestial blog, que se está a tornar numa Obra-Prima. Beijos para ti e uma festinha para “El Negro”

Jose Ruah disse...

Vistas bem as coisas aparenta ter ficado a ganhar com a troca. Ora isso já não é nada mau nos tempos que correm.

Como diz o nosso povo "há males que vêm por bem" !!!

Txico Malvado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Txico Malvado disse...

Ahhhhh torradas, ahhh que se fugiu o pensamento para as faustosas torradas de Miranda. ahhhhh torradas de Miranda. O canito é realmente simpático, deita por terra os estereotipos agressivos da raça.

Deixa-me confessar que se denota mesmo algum cansaço na escrita, pelo menos nesta última.

Força aí miuda, the early bird catches the worm. LOL
beijos