19 de dezembro de 2008

décimo sexto

O natal está à porta. Sem me aperceber, o tempo foi chegando de compras, trânsito e senhores gordos vestidos de vermelho. Mas, felizmente, onde estou não se sente o tal espírito. O calor é de Verão, os hábitos mantêm-se de floresta e de rio e a única pista que surge de algum acontecimento importante é a ausência de cada vez mais elementos cá em casa. Cozinhar para seis e não para onze faz alguma diferença. E, ao ritmo de um ou dois por dia, em breve seremos só as quatro. As últimas a partir.

Confesso que desde há muito não aprecio a época. A obrigatoriedade ainda mais acentuada que o verbo “comprar” assume durante o mês de Dezembro irrita-me. Este ano, no entanto, chegarei de longe. Não acredito em Deus mas levo uma imensa vontade de casa, de família e de ouvir falar português. Assumidamente sem dinheiro para presentes – uma que outra graça, pelo prazer de levar algo de um país diferente – sinto-me também liberta da parte feia da questão. Posso estar aqui tranquila, dedicar-me ao costume e fazer de conta que o mundo lá fora, por enquanto, não existe. Aproveito para perseguir macacos às seis da manhã, para nadar no rio quando há tempo e para ver o céu nocturno a que ainda não me habituei.

Daqui até casa demorarei mais de vinte e quatro horas. Uma boa parte delas serão passadas no aeroporto de São Paulo, esperando. Uma senhora seca. Por uma boa causa. :)

9 de dezembro de 2008

décimo quinto

Às vezes dão-me uns cheliques, umas fraquezas súbitas, cuja visita nunca é agradável. Isto desde que cheguei aqui. Começa por que me sinto certa manhã especialmente cansada, ou o calor da tarde me dilata as ideias, não sei. Os joelhos desatam a doer, os músculos viram gelatina, arrasto-me trilho acima, trilho abaixo com ganas de sentar-me a cada dois minutos, bebo toda a água que carrego numa só hora e, ao voltar a casa, queixam-se as têmporas. Momentos depois o estômago. E temos a festa armada para os dois dias seguintes.

Com pontaria certeira, tenho conseguido que a coisa se dê num dos dias livres a que tenho direito. Isto de trabalhar por turnos e obrigar a que outro nos substitua em caso de ausência é um stress acrescido ao problema em si. Passar mal uma manhã pode ter como consequência que uma das outras perda a folga e tenha que trabalhar nove dias seguidos. Assim, faz-se tudo o que se pode para levantar o rabinho e pôr as pernas a mexer. É que nove dias custam, principalmente agora que mudámos outra vez de grupo de estudo e estes animais têm território a três quilómetros daqui. Pensar-se-á que três quilómetros não é assim tanto, que umas corridas domingueiras em Monsanto rematam lindamente a questão e sem qualquer drama. Pois será. Informo que começar o dia às cinco e meia da manhã, ainda noite escura, palmilhando esses malditos quilómetros na selva com as galochas não tem a mesma piada. Principalmente porque, ao chegar, há então que começar a seguir-se os animais. Ou seja, o dia vai começar ali, três quartos de hora depois. E, claro, a ideia de o terminar no pico dos 35 graus mais húmidos que conheci e ter que suar todo esse caminho de volta é exasperante.

O lado bom deste novo lugar (com alívio continuam a encontrar-se lados bons) é o salto Arrechea, que se encontra no final do caminho. Um salto bem pequeno tendo em conta a dimensão das águas que caem por aqui mas, por isso mesmo, mais acessível. Uma plataforma de madeira montada na parte superior permite-nos atravessar o riacho mesmo onde a água perde o chão. Encostados ao varandim vemos, num enquadramento de fotografia, a água que cai lá em baixo, as copas verdes que a rodeiam, ao fundo uma língua castanha de rio e, ainda mais além, de novo o verde brasileiro. Palmeiras altas a meio caminho ajudam a organizar espacialmente as ideias. É um postal vivo, tanto como a primeira visão do conjunto das imensas cataratas ou da garganta del diablo. Aqui, no entanto, temos o extra de, lá em baixo, se formar uma piscina natural. E a sensação de entrar nessa água fria (bem mais fria que no rio) e se ficar envolto em vegetação, de olhar extasiado a água que tropeça lá do alto e se precipita, as rochas negras em que ela bate cá em baixo, de sentir um vento morno na pele, essa sensação, é especial. Quem não desejou estar, por uns momentos, dentro de um anúncio da "Fa" ou da "Timotei"? Aqui está a oportunidade. Confirma-se, bastante agradável!

Portanto, para minimizar o frete dos seis quilómetros diários (extra aos percorridos realmente a trabalhar), tenho que será uma boa ideia passar a levar umas sandochas e, ora ficar depois da labuta, ora ir mais cedo e mandar umas mergulhaças antes de começar. Só para animar a malta. Amanhã tratarei de pôr o plano em prática.

Para o dia sete, esse especial pelo qual recebi alguns simpáticos comentários no último post (que agradeço), havia planos de grande festaça. Três despedidas a somarem-se aos vinte e sete da je. Concordou-se em organizar o asado para a noite de seis. Na tarde desse dia, quem pudesse iria passear a um antigo parque de campismo que há dentro do Parque e onde, aparentemente, também se tomam boas e pouco turísticas banhocas – como se observa, o calor aperta com força e nada tem mais importância do que o acesso à água.

Infelizmente esse dia passei-o na cama. Um dos tais. Dormi toda a tarde, na esperança de exorcizar os demónios virais. Pela noite o ar agitava-se no vaivém de gente entre a cozinha e o telheiro, trazendo e levando, preparando, ocupando-se. Consegui ir e comer um pouco do cuscuz vegetariano cozinhado para evitar a carne da ocasião. Depois, obedecendo a novo queixume estomacal, regressei à cama. Ouvi-os rir e conversar lá fora, enrolei-me, dediquei-me por momentos a Saramago, pu-lo de lado, fixei por baixo as traves de madeira, o colchão da Mica – abóbada nocturna – empurrei-o com os pés para passar o tempo enquanto a pança me ameaçava “pára quieta!”. E nisto estava quando, apanhando-me desprevenida, um exército de sorridentes regalos se me apresentou enfilado no quarto (o tal de dois por três). Não me surpreendem as pessoas muitas vezes mas esta foi uma delas.

O cumpleaños propriamente dito, ou seja, o dia seguinte, já teve direito a praia – que o físico andava melhor. Apepú, que os mais atentos já conhecerão. Tosta de um lado, tosta do outro, mergulha daqui, nada para ali e dá de comer às "bariuis", tadinhas, que umas picadelas não fazem mal a ninguém e se te dão comichões de morte durante uma semana, olha, azar, é o que temos!

À noite, havia ainda que soprar a vela deixada por acender na noite anterior. Todos concordaram em preparar comida e fazer piquenique em Arrechea – sim, a loucura dos três quilómetros para cá e para lá! Fascinar-se com a natureza é assim, causa delírios colectivos que resultam em carregar bolos, garrafas de vinho, saladas, pão, carne, sendero Macuco abaixo. As moneras do turno da tarde aguardavam no salto, impacientes, descrentes na nossa mobilização e geladas com a espera depois de um banho quase nocturno. Nunca o pão com chouriço lhes soube tão bem. A lua estava pela metade. Meia lua iluminando onze bocas cansadas, esfomeadas, divertidas, partilhando o vinho, gritando pela maionese… Até que por fim se cantou, em português (!), quatro versos de “parabéns a você” – um esforço que muito apreciei – e se atacou, alarvemente, uma tal de chocotorta. Quando digo atacar, quero dizer mãos cheias de chocolate e dulce de leche, uma ronda, duas rondas, três... Para ganhar energias para o caminho, o infindável caminho de volta.

3 de dezembro de 2008

décimo quarto

Dia de Acção de Graças. Mais um primeiro. Na quarta quinta-feira de Novembro celebra-se o dia em que colonos ingleses e indígenas norte-americanos partilharam comida - o que dificilmente terá acontecido, mas mantenha-se o cinismo necessário ao bom funcionamento do sistema. Resulta o dia num género de Natal sem prendas, em que a família se reúne para agradecer e comer. Não me parece mal.

Para as amazing trata-se de uma data importante e, por tal facto, decretou-se dia livre a tal quinta-feira. Mais, associando a festa ao facto de termos terminado as focais mais cedo que o previsto, foram-nos concedidos não um, mas uns muito desejados quatro dias livres! E assim nasceu a ideia de ir armar o estaminé noutra selva que não esta. À primeira vista parece, sem dúvida, estranho que tiremos férias da floresta na floresta do lado. É quase como sair de casa e tocar à campainha do vizinho da frente, ora com licença aqui estou, com certeza faça favor. E porque não? O espaço será mais ou menos familiar, os ângulos conhecidos, as simetrias automáticas, mas o recheio será diferente. A vista não se repetirá. E o que se fará em casa do vizinho, nalguns dias de férias, será aquilo que se faria na própria casa? Estou tentada a arriscar um “não”.

Não sei bem a quantos quilómetros fica o parque Urugua-í das cataratas. Seguramente não alcança os cem. Chega-se pela estrada que passa por Wanda e vai para Andresito e, à partida, estranha-se um pouco que a recepção do lugar, a própria casa dos guardaparques, esteja plantada logo à beira do asfalto, à mercê de camionetas e buzinões. Mas, assim que saímos e o veículo se vai, logo se entende que agitação não mora ali. A estrada estende-se num abandono de espaço aberto rasgado na selva. O calor aperta, só as cigarras bulem. Um rapaz novo que certamente goza a boa da sesta no alpendre, levanta-se para nos receber, indica o espaço para acampar e depressa se vai – talvez de volta ao merecido descanso. E então há uma pausa no ar. Entreolhamo-nos. Outro lugar. Há sempre uma pausa quando se chega e se largam os sacos, quando se olha em volta e se avalia a casa do vizinho. Este vizinho tem árvores um pouco mais altas que as nossas, menos entraves arbustivos, um belíssimo espaço de sombra para as tendas, um riacho logo em frente, muitas moscas mas não mosquitos e um silêncio igual ao nosso mas que, em casa, não conseguimos ouvir. Não é um camping, é um espaço na selva onde se pode sossegar. Dormir que nem sardinhas enlatadas dentro de uma tenda emprestada, se assim o desejarmos. Porque não? De facto, o quarto de dois por três no CIES tem essa inconveniência de ainda nos permitir respirar individualmente. Acampadas, nenhuma se pode mexer na tenda sem espetar um dedo no olho de alguém ou roubar cinco preciosos centímetros da esteira do lado. Mas não, não foi pelo incómodo que fomos. Fomos pelo prazer de sair – que o permanecer ameaçava provocar-me tiques nervosos – e, na verdade, o tempo não nos permitiu ir mais longe. Tudo aqui tem tal dimensão que deixar a selva para trás tardaria bem mais que o desejado. Mar para que te quero!, vejo-te a uns inquietos 600 quilómetros de distância. Uff… Formulo pensamentos reciclados sobre a santa terrinha. Que lindo e que fácil ser-se pequeno! Não há preto nem branco, bem sei, mas, além da escala cinza, as cores caem sempre bem.

Não sei se me encantou mais mergulhar na água fresca pela manhã ou hipnotizar-me com o fogo contra as silhuetas nocturnas das árvores. Pode ser que tenha preferido as borboletas às centenas que nos rodeavam à entrada da ribeira. Ou o som da floresta a entoar melodias noite fora. Estou por decidir.

Viajar é muito falar com as pessoas. Ter paciência, dar tempo para vir o que é possível que venha. Aceitar sem esperar e dar com essa mesma inocente surpresa. Senão, é um pouco como passar por cima flutuando. Quanto mais tempo estou aqui mais me apercebo do quanto tarda conhecer um local, do quanto é preciso entrar no ritmo, assumir os hábitos. Mas isto virá talvez a outro caso, não a este.

Certa noite, um dos guardaparques, Rolando de seu nome (contive a gargalhada amigo gandamaluko, contive mesmo uma enorme gargalhada), enfim, sabendo o senhor do nosso desejo de conseguir ver um tapir, fez-nos o jeitinho. Acontece que, na selva, toda a fauna se pela por um bom cloreto de sódio, recurso escasso e fisiologicamente importante. Assim, sabendo de um específico local onde passam, por vezes, tapires, basta deitar sal na terra ao entardecer e, nessa mesma noite, um dos mais caricatos animais que já vi passará para uma visita. Assim foi. Tomadas pela expectativa, guiadas pelo Roli, atravessámos a estrada e entrámos alguns metros no breu da selva cerrada. Ali estava. Iluminada pelo foco, uma fêmea lambia os beiços que ia molhando na lama. O focinho, uma probóscide com manias de grandeza, movia-se comicamente para cima e para baixo. Do tamanho de uma vaca, um curioso aspecto de algo que não logrou ser elefante e uma disposição tranquila, ali se deixou ficar, exibindo os movimentos lentos e despreocupados de quem está em casa. E nós calados, imóveis, respirando devagar para não fazer deslocar moléculas, como crianças que espreitam para onde não devem e se compenetram em gravar as imagens na memória. O animal quase não fazia ruído. Enorme e silencioso, olhava-nos de vez em quando e logo voltava a baixar o focinho para o solo. Insectos contestavam, sapos e rãs barafustavam, algumas formigas insistiam em morder-me, mas a tapir estava de actriz principal, as luzes apontavam-se-lhe e o público só não aplaudia porque não podia. Creio que o adjectivo "único" não podia ser melhor empregue para o momento.

Num dos outros dias, passeando pelo trilho dos tapires à luz do sol, demos, sem querer, por um som para o qual temos já tímpanos bem afinados: monitos saltando. Lá estavam. Foi interessante perceber o quão habituados os nossos grupos estão à moléstia de investigadores que não descolam. Muito antes que nos tentássemos aproximar, os animais tinham já passado a uma área mais interior e ficámos a ouvi-los chilrear à distância. Somos umas mimadas, de facto.

Quanto ao dia de acção de graças em si mesmo, foi tal qual como os outros. Ler, dormir, nadar, socializar q.b., aquecer água para o mate, gritar impropérios às moscas… Mas, à noite, o rastafari de serviço – única alma acampante além das nossas, criatura com relação muito própria com o calendário maia (!) – decidiu ser uma boa ideia fazer uma espécie de pão fininho, como o “nan” dos indianos. Uma excelente sugestão. Juntámo-nos no processo, simbolizando a tal partilha de comida entre indígenas e colonizadores - aposto que a nossa foi mais agradável. Amassámos, amassámos e amassámos. Sobre a fogueira grande havia uma pedra plana elevada que permitia espalhar as brasas por baixo. Assim fomos dispondo o pão e cozendo a massa que havíamos espalmado e salpicado de especiarias. [muy rico diria eu, mas isso era se me fosse armar em emigra catita]

Devidamente descontraídas, talvez até preenchidas, regressámos às cataratas um pouco a contragosto, à boleia de uns guardas conhecidos que tinham ido a uma reunião no Urugua-í. Sentei-me na caixa aberta da carrinha e, com selva dos dois lados, sob um sol subtropical que àquela hora já não ia forte, vi o pó da estrada 101 virar uma nuvem laranja que se arrastava atrás de nós. À nossa passagem borravam-se árvores, casas, submergiam-se pessoas, afogava-se o interminável verde. Acelerando. Foi assim que o guardei, um tremer de rodas na terra batida, um calor de luz nos braços e na cara, um entre cá e lá que não queria que terminasse e uma nuvem que tudo ia engolindo. Um filme tornando-se real.

18 de novembro de 2008

décimo terceiro

Bom. Parece que começo a ter pouco que contar. Uma vez por semana e já nem sempre é fácil. O último dia livre ocupei-o a recuperar de uma crise vomito-cagalítica que me deu inesperadamente (alguma vez será esperada?). De qualquer modo, passou veloz – e conseguiu tomar a tarde e o dia livre que tinha, madrasta! Agora estou bem, recuperadinha, e há-que comer muitos chocolates para compensar.

A semana passada mudámos de monos. Demos por terminada a recolha de dados do grupo Macuco e partimos para o Gundolf, no extremo sul do “nosso” território. A distância e localização permitem agora apanhar o autocarro à hora de almoço e descer na entrada do parque. Fantástico. O grupo é bem mais pequeno que o anterior - apenas seis adultos para estudar - e é também imensamente pachorrento. Inacreditavelmente pachorrento! Num dia inteiro chegam a percorrer uns esgotantes oitocentos metros. Tadinhos… Ele há vidas difícieis. Comer, dormir e coçar-se é, literalmente e sem ironia, o que os animais fazem todo o dia.

E me gusta a nova área. Perdemos um pouco a eloquência dos nomes dos antigos trilhos, tais como Vino, Trago, Ron e Quilmes, Chicha e Grappa (tudo marcas de cerveja) e estamos, no momento, a habituar-nos às designações guaranis escolhidas para este espaço. Yacaratiá. Pecarí. Camoatí. Kuarai. Ibirá Pitá… [sorrisinho de ladecos] Imagine-se a incongruência de estar no meio da selva argentina, sem almita que entenda e partilhe, por junto, de idioma e cultura lusa e, a cada vez que se olha o mapa dos trilhos, baixar dos céus a imagem loura e toda-ela-dentes da Bibá Pitta! O que me rio sozinha. Eu e as árvores.

Existe ainda uma zona inexplorada por nós, lar do grupo de monos que se segue, a que alguns investigadores mais lamechas decidiram aplicar uma terminologia romancista. Pois temos Amor. Pois temos Infamia. Temos Sueño. Temos Descanso. E, para surpresa de meus esbugalhados olhos, temos também Rabo! Sim, é verdade. Rabo! Enfim, não fica muito longe de Ducto… Ainda assim mais no enfiamento de Canaleta. O que faz sentido, sim senhor.

E para não falar do clima nem das costas doridas, é com prazer que anuncio que gozo de novo dia livre e (let us hope) o tenciono passar longe de enfermidades. Talvez fazer o passeio “Gran Aventura” que leva os turistas de barco a passear no rio [calma, calma, calma! A juzante das quedas, evidente]. Talvez comprar mangas a setenta cêntimos, se as encontrar. Talvez passar a tarde na cama de rede a ler. Voltar a comer dulce de leche! Enfim, diz que o mundo está já aqui ao virar da esquina. ;)



6 de novembro de 2008

décimo segundo

Tendo em conta a data no calendário, começo por: PARABÉNS À AVÓ ALINE!! Tenho pena que as minhas aventuras obriguem à distância e ausência neste dia. Todas as moedas têm dois lados, não é? (aqui fica mais um beijinho especial desta neta)

Verifico, algo aborrecida, que tenho uma grande tendência para recorrer a descrições climatéricas nestes relatos. É por isso que hoje tentarei evitar temperaturas, céus, cores e demais apreciativos! Promessa.

Também sei que demorei a regressar ao blog, facto pelo qual me desculpo aos mais assíduos.

Cá se passou o trinta e um de Outubro, dia de bruxas, em que pela primeira vez me mascarei. Não só o mundo está americanizado como partilho espaço diário com quatro americanas para quem a data não poderia passar em branco. E, por me encontrar num lugar onde não é politicamente correcto chamar-lhes “americanas”, vou-me permitir roubar a Maria Rueff na sua hilariante caricatura norte-americana e, de agora em diante, adoptarei a generalização “amazing” para facilitar.

Preparámos a festa no quincho – que é como quem diz alpendre com assador –, o que passou por enfeitar o espaço com os adereços possíveis (desenhos de bruxas e morcegos feitos à mão, sacos de lixo cheios de ar a fazer de cabeças de abóbora…). As amazing mergulhavam fruta em vodka havia dois dias para nos dar a provar uma bebida interessante, muito alcoólica, servida com uma concha de um grande panelão. A omnipresente carne lá estava, a assar. Os bróculos, as beringelas e os pimentos também. Cada um foi aparecendo com o seu disfarce e já me tinha esquecido como é divertido ver as pessoas assim, com uma casca diferente da habitual. Entre aliens, vampiras, piratas e diabinhas, podiam pescar-se ainda personagens mais específicas como Pocahontas ou Audrey Hepburn. Valente misturada. Muito regabofe. Um dos pontos altos da noite foi caminhar até ao Sheraton e ir pedir o tradicional “trick or treat” a um embasbacado recepcionista argentino, que não fazia a mínima ideia do que eu estava a falar. Estendeu-me um limão e duas laranjas que tinha debaixo do balcão (por que motivo os tinha ali, não quis perguntar). Teve depois que ligar ao seu superior, que, por sua vez, ligou ao seu superior para que autorizasse o pessoal do bar a oferecer-nos uma caipirinha. Uma para dez, mas foi melhor que nada. Voltámos alegremente pela escuridão da estrada até ao CIES, rindo, mascarados, sob um céu ponteado de estrelas e desenhando com as lanternas rastos meio caóticos de luz no caminho. O resto da noite passámo-la ao som de cumbias e chamamés, dançando, ainda e sempre, no quincho.

Entretanto fui ao Paraguai. Uma tarde de calor insuportável em que a floresta me rejeitava e decidi aceitar a proposta dos equatorianos para ir com eles até Foz do Iguaçu, no papel de tradutora. Aconteceu que perdemos a camioneta suposta. Aconteceu que aquela que acabámos por tomar, concluindo ser adequada, passou velozmente pela estrada que ladeia a cidade brasileira e seguiu, sem ai nem ui, em direcção à ponte que une o Brasil e o Paraguai. Na fronteira tentámos explicar ao condutor que a nossa intenção era ficar em Foz e que queríamos sair. Nada feito, estava proibido de deixar sair alguém antes de Ciudad del Este. E foi assim que dei comigo caída na maior feira do mundo.

Para quem chega de Puerto Iguazu, uma pacata vila em que a siesta é rainha e o mais agitado que se vê é a fila de três pessoas para pagar no supermercado, um lugar onde se respira normalmente e se caminha normalmente, Ciudad del Este tem o impacto de um murro no estômago. Saltámos do autocarro no cruzamento de duas largas e movimentadas avenidas. Assim que pisámos o asfalto, uma baforada de escape viajou-me narinas acima e obrigou-me a olhar em volta. Os carros aceleravam ignorando os peões. Dos lados, as ruas enchiam-se daquelas lojas que parecem ter um pouco de tudo, de barracas apressadas como as que se montam nas feiras, de gente com carrinhos cheios de fruta, de refrigerantes e de amendoins. A maior parte tentava impingir-me conjuntos de meias e perfumes baratos. Perseguiam-nos pela rua, qual marroquinos. E a que som? Reggaetón, obviamente! A batida mais irritante do mundo em cada canto, em cada banca de tecnologias, filmes ou roupa. O pesadelo. Um universo de quinquilharia em que, para além do calor infernal, da poluição e do assédio comercial, temos que levar com o reggaetón. Duas coisas trouxe de bom do Paraguai, apesar de tudo. A primeira foi um pacote de yerba paraguaya que, além de erva mate, tem também menta. Óptima. A segunda foi um boné que muito jeito me tem dado – não tanto para o sol como para proteger os olhos da chuva.

Houve tempos em que o Paraguai era um dos países mais desenvolvidos da América do Sul. Quem o vê agora, à falta de graça de Ciudad del Este e aos mestiços tentando, a custo, trocar pacotes de amendoim por tuta e meia, tem alguma dificuldade em acreditar. Os espanhóis usaram o território para lançar as suas piedosas conquistas e isso fez com que o desenvolvimento fosse uma realidade até ao século dezanove. Eram um moderno país industrializado, à época. No entanto, por motivos que uns explicam assim e outros assado (consoante a nacionalidade), viram-se envolvidos num conflito de grandes proporções em que o Paraguai se opôs ao Brasil, à Argentina e ao Uruguai, ao mesmo tempo. Estes últimos formaram o que ficou conhecido como a “Tripla Aliança” e o resultado foi arrasarem com noventa por cento dos homens paraguaios. Noventa por cento! Acho que hoje em dia ainda não conseguiram reequilibrar a proporção. Li que, na altura, encorajaram os homens que sobraram a terem várias mulheres, para compensar. Mesmo assim ainda não está por igual. Para além disso, o país ficou destruído e a recuperação talvez não venha a ser completa. Não sei, já passaram mais de cem anos…

Na volta, passando pelo Brasil, aproveitei para trazer café. Entrar e sair, bom dia, obrigada moça. E, já em Puerto Iguazu, surpreendi-me com a sensação de casa. Desci do autocarro, respirei fundo e reconheci o ar. Almocei em sítio familiar e sorri à empregada do costume. Não falei a minha língua, mas foi como se fosse.

Deixo-vos mais dois vizinhos:

23 de outubro de 2008

décimo primeiro

Costumo gostar de Outubro. Chega depois do fim do Verão e tudo o que vem depois de um fim tem que ser apreciado. Já nos mentalizámos que a mudança aconteceu, já não nos afoga o calor, já no campo se estendem abóboras ao sol e folhas de cores quentes. Nota-se que a luz muda, doura. Na cidade, na rua, vendem-se castanhas sem graça. Se há coisa que vi mudar ao longo do meu próprio tempo, foi o sabor desses frutos assados por gente de dedos negros. [Ao som do papel de jornal] Com o preço a subir e a qualidade a descer, deixei-me disso. Contento-me em reabrir a arca e olhar para as camisolas mais quentes com alguma nostalgia nas mãos. Trato de ignorar os dias ainda quentes. E, desde há uns anos, relembro viagens pelo norte, sanduíches e moleza à beira-Douro, aldeias ao entardecer, vacas no caminho, lenha cortada, o conta-quilómetros a passar, muros de granito, olhos azuis a sorrir, gente curvada de negro. Ideias soltas.

Este Outubro quase passa por mim. Vem estranho e dá-me cheiros doces a flor e a quente, encharca-me todas as semanas, troveja, pica, cria-me novos hábitos. Estende-me de novo os dias, em vez de os encurtar, e à minha interrogação instintiva, limita-se a encolher os ombros. Não quer saber, reacende a vibração que trazia na mala e sopra depois a chama, ignorante de que aqui estou, algo esbugalhada. Estranho.

Gosto de Outubro. “Lá vamos nós, abre os olhos”, diz-me.

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Argentinos e principalmente missioneiros, têm nas empadas uma tradição de que não deixam de se gabar. Observação redundante, dirão alguns, de que não se gaba esta gente? Ora pois. Diz-se por esta América que, para um argentino cometer suicídio, basta atirar-se do seu próprio ego abaixo. Ou que a definição de ego é: “aquele pequenino argentino que todos trazemos dentro de nós”. Adoro! Não é que sejam todos assim, nem que ostentem o orgulho à vista desarmada. De facto, não tenho dados suficientes para fazer justiça aos dizeres e resta-me comentar que as empadas são boas (apesar de só as ter provado vegetarianas, o que suponho que conte apenas pela metade).

Certa noite fizeram-se as tais empadas. A massa foi comprada no supermercado para que uma pobre desgraçada não ocupasse toda a tarde a enrolar, estender e amassar na cozinha, e fizeram-se as ditas. Carne e cebola para um lado, carne, ovo e azeitona, para outro, milho e cebola para um lado, espinafres para outro. Sim, estavam boas. Convidámos o Martín para que tratasse de fechar a massa em ondinhas – o que parece que é uma arte do noroeste do país, de onde ele é – e a Mica dedicou-se aos recheios. Foi depois das empadas que nos ocorreu falar de desenhos animados. Conversa mais que recorrente entre quem já sente que tem gerações abaixo de si e encontra, assim, ponto de referência para uma infância em comum. Em Portugal, volta não volta, lá estamos a debater as piadas do Bocas ou as cores das Tartarugas Ninja. Se o amor da Julieta era realmente o Dartacão. Enfim, coisas da vida.

Só que foi aí que percebi. Dizer que este mundo é global não é, afinal, uma ilusão. Acontece, no entanto, que o ouvimos tantas vezes repetir que a noção acaba por passar completamente ao lado - como qualquer aula de história no sexto ano, depois do almoço, num dia de calor. Aperceber-me de que sou uma pessoa mais que globalizada faz-me pensar nos meus pais, nos meus avós… Quero por força imaginar fronteiras num mundo em que, agora, mal as encontro. Terão existido? Ou teremos sido sempre todos iguais e eu apenas verifico agora, neste ponto de latitude longínqua, aquilo que, antes de mim, estava afinal concluído?

Vimos muitos dos mesmos bonecos – apenas variavam os nomes que em cada língua se lhes dava (Kermet the frog, La Rana René, Sapo Cocas). Vimos muitos dos mesmos filmes. Ouvimos muita da mesma música. A nove mil quilómetros de casa, não encontro nestas pessoas qualquer fundamental linha que as distinga de mim própria. Borra-se o cultural com o individual e são apenas gente que sabe mais ou menos o mesmo que eu e partilha mais ou menos as minhas ideias. Fico indecisa entre o positivo que é fazer parte de um grupo tão amplo e o negativo de me restar menos para descobrir.

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Trovoada! Agora mesmo, enquanto escrevo, enquanto a banda sonora de Cinema Paradiso me enche os ouvidos, cai uma trovoada que bate fundíssimo no peito. Cresce a cada trovão, louca, frenética, alimentada pela água que já condensa em força e faz estalar todas as folhas mortas que cobrem o chão da floresta. Hmmm…. Que privilégio estar aqui!

Check out o que passeava pelo jardim há dois dias:

16 de outubro de 2008

décimo

- Sara, vos tomás mate? – perguntou-me Guillermo, o condutor do autocarro que me dera entrada logo ali junto à estação de campo. Eram sete e um quarto da manhã, um céu levemente esbranquiçado soprava promessas de alguma frescura e a floresta acelerava aos dois lados do veículo. Entendi então porque paráramos nas cancelas do Parque, porque saíra ele em direcção à casita com o termo na mão. Ia por água quente. O tal hábito inquestionável, certo e seguro como ser argentino: a toma do mate. Principalmente para se começar o dia. Quando falta o mate, o nervosismo é tal como se comida faltasse.

- Bueno, dale – respondi, sem pensar. Ainda não percebi se é de bom tom recusar um mate ou em que situações o posso fazer. Agradecer é que não.

Sorvi um pequeno trago com cuidado. O mais frequente é queimar a língua e aturar alguma insensibilidade gustativa ao longo do resto do dia. Amarga, a bebida. Melhor do que a que temos em casa, no entanto; diria “mais encorpada” e esperaria que me entendessem melhor. Perguntei-lhe a marca, prontamente a esqueci. Para quem não bebe café, o mate funciona como um tiro certeiro no cérebro e dá ao corpo uma semelhante sensação de energia. Sem que o estômago se revolte.

Saltei do autocarro, pronta para acção. Que não era muita – desayuno, comprar pão e outros víveres, pensos rápidos e pilhas, saber preços e horários para a Foz do Iguaçu. Regressar, com sorte, a tempo de fotografar a garganta. O que acabou por não acontecer.

Às vezes preciso de inventar desculpas para me afastar um pouco do CIES porque até no meio da selva há espaço para gaiolas.

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A trabalhar, há dias em que me sinto Attenborough. Quase sempre, para ser mais precisa. Muita da floresta aqui é fruto de crescimento secundário, o que quer dizer que, para sair de um trilho, temos que pisar, afastar e por vezes cortar muita vegetação.

Não é que tenha sido sempre assim. O problema é que o corte de árvores foi permitido até há cerca de trinta ou quarenta anos e a floresta não teve ainda tempo de recuperar. As árvores mais altas terão à volta de quinze metros de altura e a média andará pelos dez. Ao contrário do que acontece em florestas tropicais como a da Amazónia, em que a densidade de gigantes de quarenta metros cria um ambiente de sombra que impede a sobrevivência de uma camada intermédia de plantas e “limpa” o caminho para os investigadores, aqui o tal crescimento secundário é fácil.


Por outro lado, já vi que isso permite que os macacos sintam alguma segurança no solo. Os dias começam agora a ficar quentes a sério e nota-se nos animais uma paragem obrigatória à hora da siesta, altura em que os adultos se catam ou dormem e os juvenis brincam. Como não sentir-se Attenborough quando quatro, cinco, seis monitos se perseguem uns aos outros à nossa volta? Quando se enrolam em cambalhotas de wrestling a três metros de distância? Quando se baralham no meio das cavalgadas e vêm direitos a nós, estancando de repente ante o obstáculo que umas pernas humanas representam e fixando-nos com aqueles olhinhos inquisitivos? Não sei se o fariam se o espaço fosse mais aberto. E agradeço ao senhor doutor Jensen o facto de ter habituado de tal modo este grupo aos investigadores que posso chegar e assistir a comportamentos descontraídos como estes. Complicado tentar não interagir com os animais, não lhes sorrir, não lhes falar nem lhes imitar as expressões engraçadas. Sim, claro que acabamos por fazê-lo.

Recien vuelvo de la garganta… Hoje chove, nada de estrondoso mas chove. Por sorte, é o meu dia livre. Acordei às cinco da manhã com os trovões e depois de novo às oito, com o cérebro a achar demasiada a lazeira. Levantei-me na calma, dediquei-me ao skype na calma, conversei com quem tinha turno da tarde (na calma) e, como brinde, ao caminhar para o quarto, ouvi restolhar em cima. Os macacos chegavam! O sítio onde vivemos está dentro do seu território e, por isso, de vez em quando passam por aqui. Deitam-se no telhado da cozinha a apanhar sol ou usam-no para brincar, comem nas árvores em volta e posam para as fotografias.








Falei de viagens com a Jen, aprendi algo de Photoshop com o Dardo e esperei pela Mica para ir até à garganta. Depois de comer as sobras da pizza de ontem no comboio turístico, caminhámos a longa passadeira à chuva, em passo-lesma como se espera de quem nada mais tem que fazer, e vimos a água cair no buraco. Num segundo, passa nestas cataratas água suficiente para encher garrafas de um litro, pô-las em fileira, e chegar daqui a Buenos Aires. Não consigo imaginar semelhante quantidade. Num segundo.

12 de outubro de 2008

[um tucano, por fim!]


Bicharocos muito engraçados. Parecem-me desenhos, como pintados por graça, perfeitamente delineados e contrastados num mundo de mimetismos. Até as patas são azuis. Membranosas, não sei bem porquê... E os sons que fazem são iguais - mas iguais! - aos dos porcos. Muita intriga me deu a primeira vez que ouvi "porcos" na floresta. :)))

11 de outubro de 2008

nôno

Quase cem por cento de Puerto Iguazu vive do turismo, disse-me um guia. Na altura achei exagero, mas agora que já dei umas quantas voltas pela cidade, acredito que seja verdade. Restaurantes, lojecas, pontos de internet, agências de turismo, supermercados com preços para turista, vendedores de rua, hotéis e pousadas, inúmeras empresas a explorar as camionetas que vão e vêm das cataratas… Não há espaço para mais. Não me parece que se produza ou fabrique o que quer que seja.

Tirando o facto de ser um lugar pacato e rodeado de verde, a grande diferença que noto entre Puerto Iguazu e as cidades europeias que conheço é que, aqui, tudo parece velho. Os carros, as ruas, os edifícios… Até construções que sei serem recentes, como o terminal rodoviário e alguns hotéis pelo caminho, ganham um distinto ar anos sessenta quando atento neles. Os próprios autocarros que circulam no centro me transportam directamente àquela série portuguesa em que a Rita Blanco se veste e penteia como a minha avó nas fotografias antigas. Desta sensação, o exemplo mais flagrante que tenho é o do hospital. Hospital Dr.ª Marta Shwartz [há também à escolha, na versão “Marta Shwartz”, um museu, uma rua e uma placa onde se caracteriza a senhora como “el angelito de Puerto Iguazu”]. Bom, mas o hospital é algo digno de ver e reconhecer que, por muito que nos queixemos, temos em Portugal um privilegiado (ainda que burocrático e desorganizado) sistema de saúde. Com listas de espera e tudo – e atenção que acho bem que o critiquemos! Nada daquilo a que estamos habituados nos prepara para uma América do sul. Pelo menos não a mim, que ando sempre meio distraída.

Na sala de espera, cores alternantes entre o creme e o castanho vão sendo descascadas da parede, lenta e seguramente pela erosão. Posters alusivos a cuidados de saúde, meio rasgados e amarelecidos pelo tempo, tentam em vão cumprir uma função apelativa. As cadeiras em que nos sentamos são mais anos oitenta, pois que, de repente, me lembram compras no “Pão de Açúcar” da Avenida Estados Unidos da América, ainda pela mão dos progenitores, vai agora para uns quinhentos anos. Plásticas, quebradiças e com a mesma duvidosa cor acastanhada. Rangem as dores dos pacientes que se movem, incómodos, enquanto esperam. E a espera? Essa sim, é-nos bastante familiar. Corredores carregados de gente que se encosta, se abana e se impacienta (não era suposto, por definição, serem pacientes?). Gente que cheira a gente debaixo do calor subtropical. Portas anos sessenta que dão para gabinetes anos sessenta. Gordinhas de óculos na ponta de nariz, na recepção, que nos informam que a senhorita Reyna ainda não chegou mas que podemos entrar e esperar em tal sala, quando tal sala acaba por ser o gabinete onde atende, cheio de utensílios médicos à mão de semear. Enfermeiros que dão injecções sem luvas. Casas-de-banho sujas onde tudo parece ter sido deixado a meio: há lugar marcada na parede para um espelho, para uma saboneteira, mas não os encontramos em lugar algum; a tampa do autoclismo também decidiu migrar para parte incerta. Resta-nos o papel higiénico e agradecemos por isso.

E antes que se apoquentem os familiares mais apoquentativos, calma!, fui apenas ver de umas bolhas que me apareceram na pele, provocadas por qualquer substância na floresta. Xixi de aranha ou planta urticante, quiçá. Reacção alérgica de branco em terra de índio, por certo. Um creme e já está a passar.

Como terão reparado visitantes mais assíduos, os últimos dias foram menos propícios ao relato, esse registo. Senti-me cansada, dormi sempre que tive oportunidade e havia uma dorzita de cabeça que não queria abandonar-me. Ligeira mas presente.

Para mudar de ares fui até Tres Fronteras. Na ponta da cidade, é um miradouro de onde se observa a junção dos rios Iguaçu e Paraná. À esquerda estende-se o Paraguai, em frente o Brasil.
Ao contrário do que esperava, encontrei poucos turistas no alto, junto ao marco com as cores argentinas e os quiosques de artesanato. Deixei-me ficar um bocado a olhar os rios. Soprava uma aragem a que quase se podia chamar vento. Mal, mas podia. E quando corre o vento as ideias também voam. Observei as minhas deslizar encosta abaixo, por cima das copas que ondulavam, sobre as folhas tenras de verde, e vi como rodopiavam pelo caminho. Iam tranquilas e contentes. A primeira, orgulhosa de o ser, era a ideia das americanas reunidas à volta do computador assistindo aos debates políticos, do quanto se inquietam com a nacionalização dos bancos e do que tremem à simples menção de termos como “comunitário” e “social”. Quase soltei uma gargalhada ao vê-la assim, tão gorda e inchada ideia, aos rebolões a caminho do rio. [rio que vai castanho; rio de dulce de leche, ocorre-me; corre e mimetiza os sulcos que deixamos no doce quando lhe passamos a colher] Seguiu-se a mais leve, luminosa ideia do novo bebé do grupo, nascido há quatro dias da macaca Kika. Uma lagarta com pêlo e cara enrugada que ela leva no dorso, à volta do pescoço, qual criminosa estola de vison. O grupo todo anda em adoração à cria.

Mais cinzentona e arrastando os pés, apareceu então a ideia número três. Falou-me da chuva incessante, apresentou estatísticas, previsões, ameaças! Ilustrou a sua palestra com imagens dos trilhos da zona oeste inundados e de uma Sara parando a cada dez metros para despejar a água de dentro das galochas. Fiz que não vi. Atrás desta ideia, adivinhei uns pequeninos olhos tímidos que buscavam passar despercebidos. Estiquei-me, espreitei, e lá estava uma quarta existência: o cansaço, agrilhoado, coitado. Logo atrás, no entanto, espicaçava-o, contente e aos pinotes, a ideia do cheiro a Primavera. Vinha colorida, sorridente e era a única que verdadeiramente flutuava – ainda que argentina, consegui reconhecer-lhe a face num dia fresco de aragem como aquele.

Depois, afastada para marcar a sua importância, e silenciosa como a noite, vinha a leitura, a fechar o cortejo. Em passo lento, com olhos perdidos e sem precisar de ponto, declamava para dentro. Murmurava. Que dizia? Tudo aquilo que naturalmente já sabemos, mas de um modo que se me colou ao crânio para não mais sair. O de Cortázar.

1 de outubro de 2008

oitavo

Piso as galochas todas as manhãs para garantir que nenhum bicho fez delas casa durante a noite. Calco com o propriamente dito calcanhar, primeiro numa e depois noutra. Viro-as de pernas para o ar e bato com elas no chão para que o hipotético hóspede seja obrigado a sair. Já sem temer pela vida, enfio, por fim, um e outro pé. O último preparativo para o dia seguir. Então a caminhada de meia-hora pelo sendero Macuco, até atingir o R13, trilho que dá acesso ao miradouro onde, dez minutos depois, se vêem os animais ainda a dormir no bambú norte. Enrolam-se em bolas de pêlo e juntam-se aos três e quatro para afastar o frio. É engraçado vê-los acordar. Espreguiçam-se, esticam bem a cauda, abanam alguns ramos e logo começam à procura das melhores sementes para o pequeno-almoço. Estes bambús em que actualmente dormem só florescem a cada trinta-setenta anos, dá para acreditar? Repito o intervalo “trinta-setenta” - que me parece ridículo na sua imprecisão - tal como mo contaram. Ainda que seja trinta, nem queria acreditar que calhou eu estar aqui para o presenciar. Nenhum dos guardas do parque alguma vez o tinha visto! E facilita-nos bastante o trabalho, por agora, pois os macacos estão obcecados pelas sementes e recorrem aos bambús diariamente. Dentro de dois meses, ao que parece, acaba-se a mama.

Abaixo do bambú, a praia Apepú (e rima!). Uma inesperada língua de areia que nos dá acesso ao rio e a que há uns dias não resisti. Pisamos sedimentos cor-de-fogo, as rochas à volta bem negras e, de súbito, lembramos aquele livro de geologia que lá temos em casa, numa prateleira. Vulcânicas. São rochas vulcânicas. Disse-me a Sofia há uns tempos que as cataratas se formaram em três episódios de vulcanismo distintos. Uma, duas, três camadas. Interessante.

Da praia Apepú para trás, nas minhas costas, a floresta ergue-se e mal a reconheço sob a nova perspectiva. A encosta é íngreme e a parede de árvores parece engolir-nos como uma onda. Vemos os macacos e os dois bambús, ao entardecer. Digerem a ceia de sementes, preparando-se agora para dormir com o sol que baixa. Deixo pegadas na areia virgem com o gosto da criança que fui. Abandono as botas, as meias, o lenço, a mochila e o colete, empilho tudo junto a um tronco esquecido e dou saltos até à água. Está fria. Vou entrando. Fica fresca. Chega-me à cintura e noto-lhe a corrente. Fico. Deixo-me cair para trás e mergulho no verde desconhecido. Sabe a terra e a rocha. Estranho a falta de sal, apesar de estar habituada à barragem. Onde está o sal?, pergunto em voz alta. A Jen responde-me que não gosta de água salgada, que lhe faz confusão (confusão?... como é possível?). Mas gostas de praia?, volto a querer saber. Bem, já estive no oceano três vezes e gostei, mas a água parece que tem algo a mais! Três vezes… De repente, sinto-me estúpida. O mundo não está feito à imagem da Sara e existe uma montanha de gente que não vive junto à costa, não vai ver o mar em dias solarengos de Inverno nem planeia férias à volta das praias mais a propósito. Mais tarde, em casa, pergunto aos outros a que distância vivem do mar. Tirando o Dardo, que é de Roma, as respostas variam entre as quatro horas e o dia de viagem. Perto, concluem alguns.

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A comunidade Guarani em Misiones é muito grande. Dentro dos grupos aborígenes deste país, sem dúvida representativa. Discute-se, por vezes, se foi a força ou a fraqueza que os manteve, enquanto outros pereceram, e se os seus costumes têm espaço para ser mantidos ou não. Em Puerto Iguazu existem duas ou três comunidades distintas, na periferia da cidade, e muitos dos seus constituintes estão mais ou menos integrados na vida dos “brancos”. Fermino é um deles, homem novo que trabalha para o CIES sempre que é preciso montar plataformas no cimo das árvores, abrir trilhos para iniciar projectos, ou seguir macacos na falta de pessoal. Sabe sempre onde os bichos andam. É uma personagem engraçada, o Fermino. Fruto de uma mistura de sabedorias e culturas, agarrado às suas crenças mas curioso para o mundo. Acredita numa variedade de deuses, deusas, e respectivos filhos, não entende que a Terra possa ser redonda, mas quer saber o que é um electrão. Vê nas crianças elementos sagrados da Natureza e dá pouco valor ao dinheiro mas emprestou-nos um DVD com um documentário sobre o seu povo. Duvido que tenha televisão e leitor de DVD para o ver e pergunto-me se o guardará, como oferta do produtor, dentro de um cesto artesanal na sua casa de adobe. É, de facto, difícil entender os limites destas diferenças. As comunidades aborígenes tendem a fechar-se, talvez como único modo de conservação, e o que vemos de fora deixa muitas reticências no ar. As perspectivas de sucesso, no entanto, parecem-me poucas. Na Argentina, as populações originais e os seus assuntos estão sob a alçada do departamento do governo para a gestão dos parques naturais e (suposta) manutenção da biodiversidade. Animais, plantas e índios, portanto. Não são considerados pessoas como os demais, o que poderia fazer sentido dado que são distintos dos “ocidentais” e as suas vidas devem ser vistas e pensadas com respeito pela diferença. Mas, na verdade, estar, segundo quem governa, dentro do pacote “parque naturais” significa apenas que se vai passar por cima com menos alarido. As florestas são abatidas a uma velocidade alucinante, os animais empurrados para locais cada vez mais distantes e apertados e, a prazo, não há espaço para quem quer usufruir dos recursos sem pressa. “Fazer” é a palavra que marca as nossas vidas. Índios que não se ocupam, que não têm um trabalho que se traduz em dinheiro, não vão ter como subsistir. A selva desaparece e eles encontram-se isolados do mundo, mal ajustados ao espaço, carentes de um salto evolutivo que lhes ensine as novas regras. Ser absorvido ou morrer. É isso.

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Ontem choveu “pa caraças”. Olvidada do poncho (permitam-me a espanholice, é uma palavra de que gosto), a molha que apanhei não foi brincadeira. Brincadeira parece, no entanto, o jogo a que me entrego com os óculos nestes dias molhados. Preciso deles para seguir monos, isso é ponto assente. Então chove e enchem-se de pingos e já não sei se vejo melhor ou pior com eles. Mas mantenho-os. Dobro o pescoço para olhar para cima e não perder os animais que saltam de árvore em árvore e… as lentes embaciam! Tiro os óculos. Limpo-os à t-shirt, volto a colocar. Mais pingos de chuva. Um pouco adiante, mais nevoeiro. Ao fim de uma hora, a roupa ensopada já não permite limpezas. Desgraça. Não me divirto nem um bocadinho com este jogo, não há dia em que não perca…

O reverso de um dia assim é, simplesmente, voltar a casa. É em momentos assim que adoro ser humana. Chegada a pingar água do cabelo e da roupa, enfiei-me no duche. Mais quente, seca, com a roupa posta para lavar, dirigi-me à cozinha onde, para grande espanto e satisfação, a Gillian nos tinha deixado um termo com chocolate quente e um resto de esparguete do almoço. Divino! Decidimos então preparar uma sessão de cinema no imenso quarto de dois por três metros que nos coube. Um dos colchões no chão, encostado à minha cama e o computador em cima de uma cadeira. Lugar para cinco e uma garrafa de tinto. “O Fabuloso Destino de Amélie”. A chuva, lá fora, já escuro, não fazia cerimónia. Parecia que o céu desabava, que tudo tinha que parar debaixo da cortina espessa de água que ruidosamente nos dava conta de si. Como dizer-lhe que não?

26 de setembro de 2008

sétimo

Está a fazer um mês que saí de Lisboa. O champô ainda vai a mais de meio, a pasta de dentes um pouco menos. Mas estar longe de casa não é complicado quando cada dia traz consigo novidades. Durante todo este tempo tenho tido que ir para o campo sem direito a folgas, dada uma crise no joelho esquerdo da Taylor que fez com que os turnos fossem por água abaixo. Esta semana, no entanto, já regularizámos a situação. O meu próprio joelho começava a queixar-se de tantas andanças… Tratei de ir à cidade comprar dois pares de palmilhas para forrar as galochas, a ver se amortização extra ajuda. Isto de “ir à cidade” ser acontecimento de relevância também tem a sua graça. E não é que a cidade tenha muito que ver ou que fazer – apenas o inevitável supermercado, as visitas aos correios e um ou outro jantar ocasional – mas, por ser o que há, cresce em importância. Por vezes também lá vamos para a Mica tentar vender livros, uns encantadores molhinhos de folhas cheias de desenhos a preto e branco, que a própria faz. [Impressionantes recursos têm pessoas como ela para responder a uma economia que deixa muito a desejar]. Diz que em Buenos Aires se vendem bem, embora nunca esteja segura do preço a que os deve pôr. Aqui não tem sido tão fácil. A cidade é pequena e, apesar de ser bastante turística, temos sempre que regressar ao Parque às sete e um quarto, que é quando parte a última camioneta. Perde-se a hora do jantar e, com ela, a altura em que o turista sai à rua. Da última vez que o fizemos, separámo-nos à chegada. Ela para vender, eu para comprar (as palmilhas). Quando nos voltámos a encontrar no café, vinha com um ar frustrado. Então? Não vendeste?, perguntei-lhe. Bem, na verdade vendi quatro. O que me pareceu bem bom! Mas continuou: depois fui para a zona dos restaurantes brasileiros e tentei falar português, como temos praticado, mas todas as pessoas olharam para mim como se falasse chinês! Estava mesmo desanimada, fiquei com pena. Pedi-lhe que me repetisse, em português, o que tinha dito aos brasileiros (porque sei que são duros de ouvido, mas tenho-me esforçado por lhe ensinar um português com sotaque, que possa ser útil). Bom – respondeu-me com olhos tristes – eu disse: vou a deixar-vos este livros com dibujinhos por um rato e logo volto. Não me contive. Comecei a rir, a rir, cada vez me ria mais, numa corrente incontrolável, enquanto ela me fixava, expectante e infantil. Que foi? O que é que eu disse? Quando consegui acalmar e lhe expliquei que, em português, além de “dibujinhos” não querer dizer nada e pôr um “inho” no fim das palavras não as torna mais válidas, não podia falar de ratos para se referir a tempo e que rato, na realidade, era a nossa palavra para “ratón”, ela nem queria acreditar. Quer dizer que andei a dizer às pessoas que lhes deixava livros por ratos?? Pois, isso mesmo.

Entretanto, mais vai acontecendo. Decidimos, certa tarde, ir até à garganta do diablo, o maior salto que existe nestas cataratas e que é, sem dúvida, colossal. Não sei bem o que nos passou pela cabeça. Ia para as seis da tarde mas, feita a proposta, soou-me perfeitamente exequível. Estávamos perto (julgava eu). Sabíamos que era algures no fim do caminho largo de terra batida onde o dia de perseguição primatológica nos tinha levado e, como os bichos não tinham dado muito trabalho essa tarde, pusemo-nos a caminho. Um pé depois do outro, ladeando a linha do comboio turístico, fomos cheirando o ar morno da tarde. Brincando com as folhas das mimosas que se fecham se lhes tocamos. E, ao fim daquilo a que poderíamos chamar “un rato”, sendo que nada indicava a tal garganta, estugámos o passo. Começámos a bufar certa impaciência. A perceber que a luz ia diminuindo… Mais de meia-hora depois chegámos ao início da plataforma que nos leva sobre as águas e suspirámos, sem no entanto saber que dali até à garganta, mesmo por cima do rio, nos faltava ainda percorrer um quilómetro! Acabámos por fazê-lo a correr. À medida que corria e via o rio passar por mim manso, imenso, cheio de ilhotas aqui e ali, de aves a preparar-se para dormir, perguntava-me se valeria a pena tanta agitação para ver uma queda de água. Não é coisa que falte neste parque. Mas sucedia aquilo que sempre sucede com o incerto, assim que se enceta um caminho: dá-se um passo mais, não se volta atrás sem lograr. Mesmo que o fim dure apenas um instante. Ou não é assim? Seguia eu então com estes pensamentos quando comecei a ouvir o som da água a cair ao fundo. Por fim! Ficamos cinco minutos, disse em voz alta. Mais do que a noite, preocupava-nos o facto de não termos avisado o pessoal na estação de campo que íamos chegar mais tarde – porque, a bem dizer, não fazíamos ideia de que teríamos que andar quatro quilómetros até à garganta. O peso dos nossos passos fazia vibrar e soar as passadeiras metálicas. [Plonc, plonc, plonc…] Ao longe, comecei a ver a nuvem de vapor que sempre acompanha a garganta. Fomos abrandando o passo, assimilando devagar o que nos rodeava, em espanto, e creio que estagnámos bem antes das barreiras do miradouro. Senti-me em transe absoluto. O termo “abismo” nunca antes tinha tido cara. Naquele recanto do mundo, um rio é engolido num buraco sem fim. Cai com tal força lá em baixo, que levanta infinitas gotículas que vêm subindo e não permitem que vejamos o fundo. Fora de mim, não consegui sequer perceber se a emoção que sentia era exaltação, se puro pânico. Qualquer coisa que se instala no peito. Tão poderoso como deixar-se mergulhar nas estrelas à noite e dar-se conta que ser humano ou um grão de areia não faz qualquer diferença. Um instante brutal de existência em nós que durou, realmente, cinco minutos – não tinha estofo para mais. E abandonámos o local em silencioso acordo. O caminho de volta foi feito em metade do tempo e parcialmente à luz mortiça das lanternas que, felizmente, andam sempre nas mochilas. Entretanto apanhámos sinal no rádio e falámos para o CIES: estava tudo tranquilo, pouco passava das sete.

Uns dias depois, uma das guardas do parque fez anos e prepararam-lhe uma festa surpresa na garganta. Um “asado” pela noite, porque tudo o que é celebração nesta terra passa por consumir pedaços de vacas. Parece-me que nada se faz sem que um fogo se acenda e as pessoas, de todas as idades, se juntem a comer carne com carne (com sorte, um naco de pão). Nós, "moneras", fomos avisadas à última da hora pelo Martín, outro guarda que vive a duzentos metros daqui e que nos veio buscar no seu Citroen AX. Sem pressa, o veículo levou-nos ao longo da mesma estrada que, uns dias antes, vencêramos para chegar à garganta. Íamos agora em lotação esgotada: cinco no banco de trás em perfeito estado-sardinha e outros dois à frente. O arvoredo denso e o negrume que o envolvia pareciam até confortáveis vistos de dentro do carro. No rádio passava “Wish you were here” e calámo-nos para ouvir. Sete almas que se rendiam, em simultâneo, à imposição daquela guitarra inicial. No escuro, dormentes por um balanço de terra tosca, de pedras no caminho e céu aberto em cima. Em respeito ao simples facto de estarmos ali, a caminho de uma fogueira acendida sobre o mais poderoso local que conhecemos. So, so you think you can tell, heaven from hell?...

20 de setembro de 2008

sexto

No dia em que aqui cheguei, primeiro de Setembro, senti que quem estava me olhava com desconfiança. Pouco ou nada diziam, nem deram sinal de tentar evitar que ficasse com as malas todas à porta enquanto a Annie não aparecia. Não fosse a hippie salvar-me e teria, de facto, acontecido. Umas horas depois de mim chegaram as duas americanas e, no dia seguinte, a Mica. Passou-se o mesmo com todas: a sensação de estar a mais. Entretanto, com o tempo e a convivência, tudo isso já passou. Outro dia, diziam-nos que a intenção não era essa. Enfim, por princípio, e até prova de desmerecimento válido, eu opto sempre pela simpatia. Não entendo muito bem as caras fechadas. Mas pronto, agora até damos umas boas gargalhadas. Contaram-me recentemente que havia quem julgasse aqui que eu era norueguesa. Norueguesa! Eu! O meu metro e oitenta, a alva tez, cabelos louros e aquosos olhos azuis, claro! Alguém tinha espalhado esse boato porque, em não se recordando de que país europeu eu vinha, calculou arriscar na Noruega um ligeiro tiro ao lado. Porque, no fundo, que diferença têm Portugal e a Noruega se ambos ficam na Europa?? O raciocínio é mais ou menos este. Aliás, chegada havia dois dias, perguntaram-me quem tinha descoberto Portugal. E quando. [Juro] Houve então uma pausa, aquele silêncio na mesa, enquanto eu dava corda às sinapses e tentava entender a pergunta. Porque, no imediato, pensei tratar-se de qualquer coisa mais complexa, que eu não estava a alcançar. Ainda repeti, abanando a cabeça, baralhada, quem descobriu Portugal, mas como?..... E a voz foi-se-me sumindo à medida que a incredulidade aumentava. Os rostos deles (todos!) suspensos no meu. Acabei por conseguir soltar um bom, ninguém descobriu, a nossa história é diferente da vossa. Ao que assentiram, parecendo elucidados e, de súbito, também mais iluminados. Como se se tivessem lembrado de qualquer coisa. É engraçado o olho com que vemos o mundo.

Bom, mas voltemos à Noruega. A senhora que trata de algumas limpezas e organização aqui no CIES contou-me que achou deveras estranha a chegada de uma norueguesa vinda do Brasil (porque lá isso sabiam), que falava português, tinha um aspecto muito pouco gringo e, além do mais, se dirigia a ela num castelhano de forte sotaque espanhol – julgo que aqui basta que se diga “tu” em vez de “vos” para logo se ser catalogado. Dizem-me agora, em pose de assunto sério, com pancadinha nas costas e algum orgulho, que já estou melhor. "Se te cambia el acento". Que seria uma vergonha andar por aqui a falar como os espanhóis! Enfim, uma risota. Parece que, na sede do CIES, ainda há muita gente que se refere à “norueguesa”. Não sei se lhes tire essa ilusão… Ainda não decidi se hei-de ser a portuguesa, a brasileira, a espanhola ou a norueguesa.

Os dias com os monos complicam-se. A Annie anda a ficar mais séria com o nosso treino porque o stress nova-iorquino recomeça a subir-lhe à cabeça. Portanto, temos que tratar de aprender rapidinho o etograma (lista de comportamentos que interessa registar) e de deixar de baralhar umas caras macacas com as outras. Entender, de uma vez por todas, que o Trucho não é o Jesus e que a Chicca e a Estela, ainda que irmãs, se podem distinguir através de uma mancha na bochecha direita. Como se nos escapa tão conspícua característica, de facto, não sei! O que vale é que, apesar de o grupo ser constituído por vinte e sete animais, só vamos analisar os adultos. Quatro machos e sete fêmeas. Alessandro, dominante de serviço, distingue-se pelo porte altivo, atitude blazé e olhos demasiado juntos. Sempre que me mira de frente tenho a nítida sensação de que é vesgo, o que não se coaduna muito bem com a posição que ocupa na hierarquia. Cá no meu mundo, ora pois! Mas gosto dele, é tranquilo e transmite autoridade.

A fêmea dominante chama-se Thelma, tem a pelagem muito escura, uns olhinhos meio asiáticos e o nariz achatado. Apesar de ser dominante, não é aquela que tem mais crias. Na verdade, é a Clara, criatura deveras subordinada, que tem mostrado ser a grande parideira do grupo. O que me intriga. Supõe-se que uma alta posição social se correlacione directamente com o fitness do animal. Ou seja, o facto de ter um elevado status deveria fazer com que os seus genes fossem transmitidos à geração seguinte com maior representatividade do que os dos outros indivíduos do grupo. Sei que quantidade não é sinónimo de qualidade e que os filhos da Clara podem vir a ser uns franganotes que mal se consigam reproduzir eles próprios. Pode ser… Mas se alguns já estão crescidinhos e sem aparentes problemas, bom, não sei o que pensar.

Ontem à tarde o Jesus e a Yoli decidiram cortejar-se. E, como lhes foge o pezinho para o exibicionismo, acharam por bem fazê-lo no “paseo superior”, à vista de toda e qualquer almita turista. Que delirou, pois que os bichos guincham e fazem caretas um ao outro, ladeando a cabeça com denguice para a direita e a esquerda. Tem muita graça. A maior parte dos turistas, para dizer a verdade, não se apercebe de que assiste a um comportamento menos vulgar. Mas gostam na mesma. Entusiasmam-se. Chegam a tornar-se difíceis de controlar. A cena tende a começar com um par de argentinas cinquentonas, gorduchas e bem oxigenadas, a exclamar a plenos pulmões: ai, ai, mira, mira los monitos!! Ao que se segue uma tropelia humana, acercando-se dos bichos. Uuhhhhh…mira… que hermosos! Y la cria con su mamá…. Re lindo!! Em questão de segundos temos um aglomerado de trinta pessoas, de diversas idades e aspectos, em aparente adoração aos macacos. E digo aparente porque – e isto é algo que me surpreende sempre – tão depressa chegam como, de repente, se desmaterializam. Como se a observação tivesse prazo de validade, o suficiente para levantarem bem alto, acima das cabeças, um número relevante de máquinas fotográficas que disparam com sofreguidão. E então seguem o seu caminho, até ao entretenimento seguinte. Um tucano. Um coati. Lo que sea. Felizmente.

Para seguir monitos, há-que ter costela alentejana. Pouca pressa, mais olho para ver que perna para caminhar. Um dos erros que cometíamos amiúde, de início, era get ahead of the monkeys. Sai-me isto em inglês porque a frequência com que ocorria era tal, que a frase se tornou quase uma expressão do quotidiano entre nós. Agora já aprendemos. Eu e a Mica, numa atitude claramente mais latina, deixamo-nos ficar até à última, de preferência espojadas e com borboletas mil a pousarem-nos no nariz, nas mãos e na roupa, até termos a certeza absoluta de que os macacos estão em movimento. Aí, então, damos corda aos sapatos. Uma espécie de jogging em perseguição amigável. Corridinhas ocasionais. Mas funciona. Quando no campo e ao alcance da voz, comunicamos umas com as outras através de “ops”. Um “op” gritado para o ar significa “estou aqui”. Dois “ops” dizem “estou aqui e tenho macacos!”. E três “ops” pedem à outra pessoa que largue o que está a fazer e venha ao nosso encontro. Claro que temos rádios, mas assim poupa-se energia (além do que nem sempre nos organizamos com as cargas dos mesmos e há dias em que, pela escura e remelenta madrugada, nos apercebemos que não há baterias carregadas). À conta deste original modo de comunicação, tive um episódio caricato – também nos primeiros dias de macaquice. Hoje sei que não posso pôr-me aos “ops” em zonas onde haja turistas. Just too embaracing… Mas, naquela nervoseira inicial, consegui soltar um sonoro “op” à passagem do comboio carregadinho de pessoas que voltavam da Garganta del Diablo. Qual não é o meu choque quando me apercebo que, nas minhas costas, uma resma de gente me respondia com o grito do Tarzan! Virei-me e vesti um ar duro mas o que queria mesmo era desmanchar-me a rir. Visualize-se o modelito completo: galochas até ao joelho, calças enfiadas dentro das mesmas, típica camisa axadrezada para evitar picadas de mosquito, colete cheio de bolsos de onde saem rádios, bússolas, blocos de notas e afins penduricalhos e, para terminar (o ex-libris), lenço na cabeça! É que carracinhas e ácaros no corpo ainda vá, tudo bem, agora bichezas no cabelo eu cá dispenso. E como as palas dos chapéus não deixam olhar para cima, para as copas das árvores, muitas de nós optam pelo lenço. O que, convenhamos, acrescenta caricatura ao figurino. Nesse mesmo dia, uns minutos depois, a Mica saiu afogueada de uma mancha de floresta directamente para uma zona de paseo onde as pessoas vão comprar viagens de barco e, dirigindo-se ao primeiro que passava - sem, no entanto, deixar de buscar constantemente os macacos na vegetação – soltou-lhe um aflito: donde estoy? [Porque andar no meio das árvores e arbustos pode mesmo desorientar]. O senhor, ao que parece, assustou-se. Eu também me assustaria se um animal tão grande me saltasse de dentro da vegetação. Respondeu-lhe, a medo: en el Parque… Creio que lhe deve ter associado um qualquer desequilíbrio mental. E ela, em vez de insistir ou se estender em explicações, encolheu ombros e voltou a meter-se na floresta. Ainda agora dou gargalhadas ao imaginar a cena.

Portanto, como se vê, isto é divertido. Só com a chuva é que ainda não me dou bem.

Deixo-vos alguns dos meus amigos.=)





14 de setembro de 2008

quinto

Ontem deitei-me na cama de rede depois de voltar do campo. O dia tinha sido um bocado chato, os animais moveram-se sempre muito devagar e sempre nos barrancos de onde não os conseguimos ver – só ouvir. Paradas à espera de um som, caindo por vezes no erro de nos adiantarmos aos bichos, custou um bocado a passar. Mas a ideia é saber sempre onde vão passar a noite para que, no dia seguinte, os possamos encontrar pela manhã. Assim, mesmo sem realmente os observar, ficar pelo menos até às duas da tarde é sempre necessário. Dessa altura até às seis podem mover-se um bocado mas já dá para prever a direcção em que o farão e os dormitórios não são assim tantos.

Tardiamente almoçada e banhada, deitei-me na cama de rede, inspirei o ar carregado e lembrei-me do princípio de um livro do Sepúlveda. O meu preferido, O Velho que Lia Romances de Amor. Fraca de memória para repetições, não o posso transcrever. Mas recordo que nos mostrava um céu como uma barriga inchada que cobria cabeças num pueblo à beira-rio, num local florestado como este. Lembrei-me dessa passagem, desse inicio de livro, porque acima de mim o céu inchava a sua barriga cinzento-amarelada e ameaçava borrasca. Tal e qual. A brisa soprava com alguma força, estava quente e pesada, já cheirando a chuva. Fazia levantar as folhas do chão e, a mim, espreguiçar ainda com mais gosto. O cheiro a doce, a plantas, a mundo novo. Se esse céu redondo pudesse escrever, estou certa que teria desenhado a laranja terroso e em letra incerta de criança a palavra “trovoada”. E como é boa uma trovoada em chinelos e mangas curtas, não? Deixei-me ficar felinamente estirada na rede fingindo que lia um livro. Chegaram então, quase em simultâneo, a Verónica e a Mica. A primeira trabalha também aqui no parque com os macacos, mas não no mesmo grupo que nós. É assistente da Clara, que estuda conflitos entre grupos de capuchinhos. A segunda faz parte do meu grupo (é a única não-americana, para além de mim). Ambas argentinas de Buenos Aires. Sentaram-se então por ali, uma a ler, outra a contar-me o resultado da sua ida à enfermaria tirar umas bichezas do pé – que trouxera de El Chaco, uma zona selvagem supostamente muito bonita a Este e muitos quilómetros daqui. A Mica preparou um Mate, que foi passando como manda a tradição, e pediu-me que lhe ensinasse Português. Não me tinha passado pela cabeça que pudesse interessar a alguém aqui aprender o nosso luso idioma! Mas, ao que parece, o Brasil é um país grande e interessante… Resultado: além de andar bem baralhada com o castelhano e o inglês diários – é frequente acordar e, parca em consciência, ter um autêntico bloqueio quanto à língua que devo usar para perguntar as horas -, agora encarno a brasileira em mim e dedico uma hora diária a ensinar palavras à Mica nessa sonoridade que não é a minha. Às vezes, com o cansaço físico dos dias bem mexidos, acabamos a ter enormes ataques de riso porque não conseguimos dar uma para a caixa. A Jen, das duas assistentes americanas a mais velha, tem um espanhol ainda básico. Tal como o inglês dos equatorianos que para aqui andam a fazer um trabalho de ecoturismo. Todas as noites, à mesa do jantar, americanas e equatorianos tentam ensinar os respectivos idiomas uns aos outros. Asseguro: hilariante! Como os argentinos têm uma maneira muito particular de falar, aspirando os esses e substituindo os sons de “ll” e “y” por “chhh”, a expressão castelhana de um americano que aqui aprende a língua resulta em algo que parece uma anedota. Deixa-se ficar a entoação americana, os acentuados altos e baixos e as exclamações frase sim, frase sim, mas numa língua absurdamente caricata. A mistura dos “chhh” com o facto de não conseguirem fazer soar os erres fá-los parecer como tendo uma língua própria, à semelhança do que fazem algumas crianças. Às vezes dá-me ideia que ouço ucraniano, moldavo ou swahili à mesa do jantar!


Temos muito bom ambiente no CIES. Além do grupo da Clara, composto por quatro raparigas (duas dos states e duas daqui), do nosso, e dos tais dois equatorianos, há o Riccardo, italiano que acabou de chegar para tentar desenvolver um projecto de promoção do parque e o Mosquito, argentino que estuda os propriamente ditos mosquitos e as doenças que transmitem. Além disso, apareceram também há uns dias duas raparigas argentinas que andam a estudar para ser guardaparques. À hora do jantar é uma ordenada confusão na cozinha comum. Mas, ao fim de duas semanas, já estamos à vontade uns com os outros. Mesmo aqueles que, por questões idiomáticas, não se entendem. Os meus temores não se cumpriram e os “oh my God” que tenho que ouvir não incomodam, afinal, tanto como isso.

Adoro, na Argentina, que toda a gente se cruze e se fale com um sorriso na cara. Como se problemas e tristezas realmente não pagassem dívidas. E adoro o mate, a infusão de uma erva que ocorria originalmente apenas nesta região do país. Como bebida é um pouco amarga, ainda não me habituei a ela por completo. Mas o ritual é que me encanta. Serve-se num pequeno copo de madeira, forrado ou não a couro, em que as ervas são deitadas e mexidas para acamar o pó, deixando as folhas maiores no cimo. Não terá mais volume do que o correspondente a dois goles grandes. A água aquece-se até ao momento imediato antes da fervura e é colocada num termo. Juntam-se então as pessoas para el mate e há um responsável pelo momento, alguém que convida. Ele (ou ela) vai, assim, deitando água no mate, que é também o nome do copo. Enche a primeira vez e bebe-o, através da bombilla – um género de palhinha de metal com um filtro no fundo para não deixar subir as ervas –, para testar se está bom. A partir daí serve um copo cheio a cada pessoa, que o deve beber até ao fim e devolver sem agradecer. Quem prepara o mate continua a encher e a passar o copo a todos os que queiram. No fim, recomeça. E quem ache que já tem o suficiente deve devolver o copo dizendo gracias. Esse será o sinal de que não quer continuar na roda do mate. Isto faz-me sentir parte de uma tribo pré-histórica e imagino sempre que me junto ao meu clã, ao fim do dia, a debater o movimento das manadas, a necessidade de alguns instrumentos ou o amadurecimento dos frutos. Pensando bem, sentamo-nos à mesa a falar do movimento dos macacos, da orientação nos trilhos, do clima e da comida que é preciso ir comprar à vila. Qualquer semelhança com a dita pré-cultura não será pura coincidência. E o mate dá espaço para que se fale. Me encanta. Surpreendeu-me não apenas pela novidade em si, mas porque toda a gente o faz. Literalmente toda a gente. Em cada casa argentina em que entro, há um mate na cozinha, cheio de erva já usada (não sei porquê, mas não o guardam lavado). Em cada esquina vejo grupos de amigos a tomar mate. Até na camioneta do parque, que nos leva a Puerto Iguazu, vejo o condutor a tomar mate pela tarde! Uma mão no volante, outra segurando o mate. Ao cruzar-me com as argentinas que regressam do campo, vejo-as com um mate já seco. É incrível como algo que implique andar com um termo atrás esteja tão enraizado no dia-a-dia das pessoas.

Adoro também o dulce de leche, que é como quem diz leite condensado em formato cremoso para comer à colher ou barrar onde se queira. Banana com dulce de leche, hmmm... Bolachas com dulce de leche, hmmm… dulce de leche com dulce de leche, hmmm…

Uma última ideia: quem foi a alminha que se lembrou que um poncho seria uma boa solução para andar debaixo de uma tromba de água na floresta enlameada? Alguma que nunca teve que o fazer, por certo. Agora não é o frio mas a chuva que me frita as ideias.

13 de setembro de 2008

(fotos in between #2)

A noite passada foi tempo de conhecer as cataratas debaixo da lua cheia. Aqui fica o registo possível:


E um dia destes cruzámo-nos também com um pequeno jacaré. Como se nada fosse...

8 de setembro de 2008

quarto


Nunca antes na minha vida tinha regularmente começado a fazer o que quer que fosse às seis da manhã. Riam-se os insensíveis que podem, é mesmo verdade. O despertador toca às cinco e meia em ponto. Estranhamente, como já desde antes de viajar andava sem sono, tem custado pouco. Percebo que afinal umas seis horas diárias são suficientes para descansar. Bizarro! Ao fim de apenas uma semana de campo intensivo (e adiante já vão ler o intensivo que realmente é) começa a fazer-me confusão a quantidade de horas de luz que costumava perder pela manhã. Ou o facto de não ver o sol surgir e falhar encontrar a o mundo a acordar. Os sons na floresta, todos os cantos das aves, os movimentos na folhagem, os feixes de luz a entrar através dos buracos que ela deixa... A neblina a descolar-se com lentidão. Não há margem para dúvidas, são momentos especiais, os amanheceres.

Para acompanhar os macacos é preciso encontrá-los na zona em que passaram a noite, antes de se porem em movimento, e é por isso que acordamos ainda de noite. A vestimenta-campo varia consoante a temperatura mas inclui sempre meias para caminhada, calças de secagem rápida, qualquer coisa de mangas compridas por causa dos mosquitos, e galochas. Nos últimos dois dias tem estado um gelo de morte. O clima aqui é incrível! O primeiro dia em que fomos realmente para o campo parecia um inferno. O simples facto de vestir uma camisa em cima da t-shirt deixava-me o corpo a assar e a pele a transpirar. Os óculos embaciavam. A respiração ficava doida à mais pequena subida. Pensei que não era talhada para estas coisas. Entretanto refrescou um pouco, o dia seguinte correu bem melhor a todas nós e lá demos uma segunda hipótese à coisa. Depois veio um dia de chuva e algum frio, um de muito, muito frio e esta manhã, que foi de gelo absoluto. Não estou a exagerar nem um bocadinho, esta amanhã havia geada lá fora. Geada! Quando saímos às seis horas – eu, que não trouxe casaco quente, com um montão de camisolas e camisas enfiadas cabeça abaixo para ver se atingia o “estado cebola” – o ar cortava-se às postas. Senti-me em Andorra, preparando-me para a primeira subida da montanha, só que sem o equipamento necessário. As mãos um bloco de pedra, sem mobilidade, quase a partir. A desgraçada da Mica, uma das minhas colegas, foi-se meter num trilho para espreitar o bambu onde achávamos que os bichos podiam estar e ficou rodeada por uma nuvem espessa que subia a encosta. Enfim. Estaria tudo muito bem no Gerês, mas no Iguazu?? Finalmente, esta tarde, o sol apareceu de novo. Não que tenha ficado calor, mas ao menos descongelámos um bocado. Já não posso olhar para o polar da CM, a long sleave e a camisa de flanela, que são os elementos de vestuário mais quentes que tenho e que, como devem imaginar, já têm pernas e ganharam vida!

Em havendo tempo, pela manhã, comemos qualquer coisa na cozinha comum. Em silêncio, que a essas horas ninguém em seu perfeito juízo pode falar! Tenho conseguido atirar à pressa uma fatia de queijo para dentro de um pedaço de pão, olhado o nível de água na camel back e agarrado ainda uma barrita de cereais. Uma maçã, quando as há.

Saímos a passo despachado. Com o frio que tem estado, largamos vapor e tiritamos durante dez minutos até aquecermos. É preciso percorrer alguns trilhos e atingir o dormitório dos animais assim que possível. Há dormitórios em sítios bastante acessíveis, aqueles em que nos basta seguir os caminhos feitos para os visitantes irem às cataratas e desviar para a floresta apenas por uns cinquenta metros. E depois há os outros dormitórios, uns delirantes locais em que os joelhos são obrigados a amortecer em contínuo e as mãos se esforçam para não agarrar todo e qualquer raminho que passe ao alcance ocular. É num desses sítios que se vê o melhor amanhecer, pois claro, mas é preciso uma certa dose de boa vontade para lá chegar. Bem, é mais um imperativo para quem quer controlar o movimento dos animais. Do ponto elevado de que falo, a que chamaram com originalidade “the mirador” (a imaginar com pronúncia americana!), consegue ver-se uma brutal curva do rio, a pequena e inacessível praia que o lado de cá alberga, a encosta que se ergue no lado brasileiro e os contornos das suas árvores e, acima, os tons rosa e dourados do sol que chega.

Depois a floresta tem daquelas coisas giras: ramos, lianas, lama… Um tralho por dia dá saúde e faz crescer, não é assim? Acho mesmo que a média não está nada má. Sendo que apenas numa das vezes me magooei, ainda melhor. Também agradável é levar com as teias de aranha na cara. Ou melhor, ir com a cara contra as teias – sejamos justos. É um mimo, hoje devo ter comido teia lá para cinco vezes! Terá nutrientes úteis? Espero que sim, já que estraguei o ganha-pão da pobre criatura. Chegar a casa e descobrir que uns ácarozinhos decidiram fazer uma festa nas nossas virilhas e barriga também tem o seu quê. Bem bom. “Bichos colorados” como lhes chamam aqui. Nada de grave, acontece a todos e resulta numas babas que duram quinze dias. Tudo seja assim simples e indolor e dar-me-ei por contente.

Adiante, tenho-me sentido super bem neste papel de investigadora de campo. Bom, por enquanto sou mais pessoa-autorizada-a-andar-por-todo-o lado-e-a-seguir-os-monitos-mas-que-se-perde-que-nem-uma-tonta. Faz parte. Terei que dar algum crédito a mim mesma, dado que é o quarto dia em que saio para o campo. A área não é muito grande mas verdadeiramente confusa. O mapa que temos é imperfeito e conto que, com o tempo, seja mais mental do que outra coisa. Así que no está tan mal. Não sou muito desorientada, não me stresso quando me perco e, de uma maneira ou de outra, todos os caminhos acabam por ir dar a Roma [no caso, ao Sheraton].

Agora aquilo que eu ando - senhores! - aquilo que eu ando… O plano é que duas pessoas trabalhem das seis ao meio-dia e outras duas do meio-dia às seis. Mais coisa, menos coisa. Só que, por enquanto, temos que aprender e praticar tudo. Andar na floresta, conhecer os caminhos, saber acompanhar os macacos sem os perder, saber que direcções tomam, identificar os indivíduos do grupo que vamos estudar agora (pfff… são só vinte e seis, coisa pouca!), estudar a lista de comportamentos… Então, por tudo isto, temos andado no campo oito a dez horas seguidas, o que é dose. No fim já ninguém quer saber dos macacos, é tal o desespero por comida e por pés para cima. Chegamos ao centro à tarde tipo zombies. Mas vale a pena. É fabuloso estar no meio dos animais, vê-los andar por ali, fazer uma data de coisas, estar, verdadeiramente, no seu mundo. Ver como é. Eles estão muito habituados a ter investigadores à perna e já não ligam. Podemos estar a três metros que eles não reagem. Mas é raro acontecer tê-los tão perto. Vai ser engraçado andar no meio do mato, de gravador em punho, a olhar para o ar. Porque essa é outra, passamos o dia a olhar para cima, onde os macacos se deslocam. Mas são coisas que só custam de início, acho que já tenho os músculos do pescoço habituados. Na verdade (e isto acho muito giro), tenho os sentidos todos a tornar-se mais refinados. Ou talvez especificamente adaptados ao novo espaço que ocupo, ao que passo mais tempo a fazer. Tenho os olhos e os ouvidos em “modo macaco”: ouvem restolhar ao longe, vocalizações ligeiras, vêem movimentos subtis e ainda só passou uma semana. Uma semana! Parece-me que passou um mês… Nunca me tinha sentido tão entregue a um trabalho. Afinal talvez seja talhada para o dito.

4 de setembro de 2008

(fotos in between)

Deixem-me avisar desde ja que estou num teclado sem acentos. Mas como eh soh para as fotografias, nao vem dai grande mal...

Tirei estas fotos ah chegada, nas horas em que esperava pelas outras assistentes. Imaginam como fiquei? Completamente doida com tudo!!!











Estas tres acabei de tirar. Sao do CIES, onde estou a viver (Centro de Investigaciones de Ecologia Subtropical). E onde a humidade tende a perseguir-nos sem do nem piedade! No total somos umas dez pessoas e normalmente juntamo-nos ao jantar, numa mescla de castelhano e ingles que da muito que rir. Sinceramente nao sei se prefiro o espanhol das americanas ou o ingles dos equatorianos... ;)





2 de setembro de 2008

terceiro

Aterrei ontem de manhã em Foz do Iguaçu. As malas foram as primeiras a sair, provavelmente porque fui a última a entrar. Os brasileiros têm um modo diferente de fazer o check in, que eu não dominei por completo – está visto – e só quando ouvi as hospedeiras de terra perguntar umas para as outras “fechamos Iguazu?” é que percebi o que se passava. Desatei a esbracejar e a dizer “esperem, esperem, também vou!”. E, muito a correr, lá consegui vir. O voo dura um instante. Várias vezes agradeci em silêncio à Sofia por me reservar um lugar à janela porque as vistas são fantásticas. Ao altifalante o comissário anunciou o pequeno-almoço, enumerando todas as bebidas que iriam servir. Café, café com leite, suco de laranja, coca-cola, coca-cola zero (note-se o pormenor) e guaraná. Decidi pedir um chá, só para contrariar. E a hospedeira respondeu-me, com olhar preocupado: só tem chá quentchi. Hum… Controlei alguma vontade de rir. Nem me ocorrera que pudesse ser frio.

À medida que nos aproximávamos do destino e o avião perdia altitude comecei a inquietar. Abaixo de mim continuavam os talhões de terra mexida, mais ou menos coloridos, com geometrias imperfeitas, mas de floresta via apenas umas manchas aqui e ali. Muito poucas. Será que a mata, afinal, era mais um fragmento que outra coisa? E onde andava o rio para me nortear? Foi assim que, de repente, criando uma linha bem definida no solo, o cultivo deu lugar às copas das árvores. Um espesso manto verde em que a distância parecia congelar as plantas em ligeiros relevos pétreos. Colei a testa ao vidro. O rio serpenteava já por ali e, neste nosso mundo tecnológico, não tirava da cabeça a imagem do Google Earth do local. Afinal estava correcta.

Aterrei em Foz do Iguazu e, saindo para a pista, levei com uma aragem húmida mas bem fresca no corpo. Obrigou-me a vestir a camisola, o que me deixou algo apreensiva dado ter trazido apenas uma (para improvável noite fria, julgava!). Agora talvez tenha que ir ali à cidade soltar uns pesos para dar repouso ocasional à dita camisola e manter-me odorificamente aceitável aos demais. Bem, mas falando em cheiros, a que cheira esta terra de onde escrevo? Cheirava, logo ali no aeroporto, a terra molhada. Sem mais complicações, era só isso, um delicioso cheiro a terra molhada! Senti-me realmente contente por não ter que procurar definições mais rebuscadas. Claro que também cheirava a plantas, plantas para nós exóticas, mas como o aeroporto estava bem ajardinado com relva e pequenos canteiros, a vegetação mais distante ficou mascarada. Relva e terra molhada, embora mais adocicado do que seria na Europa.

O Juamilson, guia turístico conhecido dos tugas paulistanos, estava à minha espera à saída. Muito prestável, foi buscar o carro para que pudéssemos seguir viagem. Era um brasileiro muito amável, pelos cinquenta anos de idade, com quem aprendi qualquer coisa sobre a história do local, a zona das três fronteiras e a relação entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai. Sobre a dificuldade que os poucos índios que sobram têm para se adaptar ao nosso estilo de vida. Sobre o que há por fazer no Brasil e sobre o que se faz a mais. Acabou por ser uma viagem cultural. Pedi-lhe ainda que passássemos na cidade para procurar botas de borracha, o que fizemos tanto do lado brasileiro como depois em Puerto Iguazu, mas do meu número só encontrámos botas amarelas. Um mimo para andar na floresta! Daí que ainda não tenho esse veículo todo o terreno para a macaca aventura.

Finalmente chegámos ao parque. À entrada disse a uma guarda-florestal robusta e sorridente, que procurava a Annie, a americana que estudava os caí. Disse-me que sabiam que eu vinha, o que me tranquilizou, e que podíamos entrar e procurá-la no CIES, que é o centro de investigação cá do sítio. Uma estação de campo com três ou quatro edifícios baixinhos e muito húmidos, debaixo do arvoredo. Ao chegar lá perguntei de novo a uma argentina hippie se sabia da Annie. Não sabia, não tinha o número e informou-me que ela já não morava aqui. Onde está então?, perguntei-lhe. Em casa de um guarda do parque. Ora bem… não perde tempo! E eu ali especada, o Juamilson também, sem decidirmos o que fazer, até que ele sugeriu irmos almoçar para fazer tempo. Nessa altura é que percebi onde estava. A cinco minutos a pé, seguindo na direcção das cataratas, ergue-se, imenso, o Sheraton. Não entendo que raio de esquema permitiu construir assim um hotel dentro do parque. O Juamilson diz que na época da ditadura um endinheirado amigo do governo conseguiu comprar o terreno ao exército. Agora o conspícuo hotel vira-se para a mais impressionante queda destas cataratas, a garganta del diablo, e os seus hóspedes tomam banho na piscina e bebericam cocktails olhando para ela. Um pouco mais adiante fica a zona dos restaurantes e começam os percursos pedestres para visitar as cataratas. Foi num desses restaurantes que almoçámos, um self-service apetitoso em que desde logo me dei conta que evitar a carne vai ser algo complicado. Era buffett (bifê para os brasileiros, com ‘i’, sabiam?) Na zona central da sala tinham várias saladas e acompanhamentos. Numa mesa lateral os doces e a fruta. E ao fundo, atrás de um balcão, um che assava os nacos de bicho. O juamilson soltou um “cê tem qui provar essa carne argentina qui é uma delícia”. E, tendo ficado receosa que se ofendesse caso eu rejeitasse (já que a sugestão de restaurante fora sua), lá fui eu, engolindo em seco, implorar ao che que me desse um pedaço de lo más pequeñito… [posso imaginar as gargalhadas desse lado] Enfim. Ele achou que estava óptima, eu, desabituada e não-apreciadora, achei comestível. Eles fazem aqui um molho com ervas, meio picante, que se põe em cima e disfarça um bocado o sabor da carne.

Quando voltámos ao CIES, a Annie continuava sem aparecer. Daí que a argentina hippie me tenha dito qual seria a minha camarata e eu dei ordem de soltura ao Juamilson. Tirei as coisas das mochilas, fiz a cama, e fui a correr ver as cataratas. Está tudo muito perto. As cataratas deitam um constante ruído de fundo, como se estivéssemos na praia atrás das dunas. E chegar a um dos miradouros do caminho e, finalmente, vê-las é… poderoso! Difícil de descrever. Durante esse passeio senti-me dentro de um filme, como se fosse impossível que uma coisa assim realmente existisse. Além do mais, assim que começamos a ser envolvidos pela mata que rodeia os caminhos, somos assaltados por uma quantidade e diversidade de vida impressionante! Começa pelas borboletas de cores e padrões que não acabam, continua nas aves descaradas, de cantos muito diferentes daquilo a que estamos habituados, nos lagartos gordos que se colam às árvores, nas rapinas que nos passam quase em cima da cabeça e termina nos esfomeados coatis que percorrem o parque como rufias em busca de comida nos caixotes do lixo. Um deles, às tantas, decidiu que um bom sítio para farejar seria a minha mochila da máquina fotográfica. Escusado será dizer que corri para ele aos “não, não, nem pensar!” como se se tratasse de um cão.

Ao fim da tarde e de muita fotografia, voltei para cima onde, finalmente, encontrei as três americanas já juntas. À minha procura havia um bocado. E o que posso dizer delas? Os meus temores foram descansados. Passando as evidentes diferenças culturais – como as unhas dos pés pintadas de cores tão duvidosas que me é impossível adivinhar-lhes o nome – parecem-me bastante porreiras. As duas assistentes são um bocadinho mais novas que eu, têm 22 e 24 anos e, por dominarem mal o espanhol, ficam um pouco inseguras em situações em que têm que o fazer. Demo-nos bem, consegui dizer piadas de que se rissem e isso é o mais importante. Um entendimento humorístico! A Annie é mais velha, terá trinta e poucos e também é porreira, despachada e faladora. Quando me viram fizeram a cena americana dos abraços que me deixa um bocado constrangida, mas o mesmo já se tinha passado no Brasil - não me apanharam desprevenida.

Então, e como o namorado da Annie fazia anos e haveria um churrasco na casa deles, rumámos à cidade para comprar bedidas e extras. Eu e a Jen arriscámos uma lasanha de espinafres congelada.

No jantar foi aparecendo o pessoal do parque, o que deu muito jeito para os conhecer a todos logo no primeiro dia. Vários vivem aqui como casal (trabalhando ambos como guardas) e têm miúdos. A maioria é bastante mais velha que nós. Mas os argentinos são tão encantadores, simpáticos, brincalhões, que deixam qualquer um à vontade. Uns de traços índios, outros completamente europeus. Adoraram que fosse portuguesa e passaram o tempo a perguntar-me o que fazia tão longe de casa. Apareceu também um brasileiro que tinha vivido alguns anos em Cascais, gosta de fado e do Bairro Alto e considera a noite de Lisboa uma das melhores que já viu! [Incrível] Foi bom falar português ao fim de meio-dia a estrangeirar.

Reunimo-nos à volta da fogueira a ouvir um deles tocar viola e vários cantar músicas da região. Muito suaves, sentidas. À minha frente podia ver o cruzeiro do sul num céu completamente pintado de estrelas. A noite estava limpa e fria. E, descansada da ansiedade dos últimos tempos, suspirei esse alívio. Tem tudo para correr bem.