18 de janeiro de 2009

décimo nôno

Naquele dia era dia de nos sentirmos quase exploradoras, quase imagens desenhadas num ecrã, generalização fantástica – fantasiada – de gente que estuda animais na floresta.

Saímos à uma, debaixo de um sol que fazia pouco de nós, pelo caminho que parte das traseiras dos quartos. A mochila carregada, além da tralha dita normal, com um termo de água gelada para, mais tarde, preparar o tereré. As botas altas de borracha e a fricção das meias na pele a lembrarem que já o dia anterior tinha deixado as suas marcas. Os phones metidos nos ouvidos porque facilitam o esforço de chegar até ao fim do percurso – ou de voltar a casa mais tarde. É que com música vai-se mais leve, absorvido num mundo interior que compete com qualquer outro entretém. E esquecem-se um pouco os tornozelos e os gémeos…

Uma perna atrás da outra, comandadas pelo ritmo invisível, nenhuma delas se importava com as gotas de suor que escorriam da testa. Nem eu me importava muito. As curvas do caminho já me conhecem. As raízes saídas da terra laranja não me fazem mais tropeçar, ainda que as botas resistam com algumas teimosia a ser levantadas do chão – ganham vertigens, diz quem sabe que é coisa normal em calçado.

Assim, passando os quarenta minutos por quinze, chegámos num instante. Cruzámos a pequena ponte de tabuinhas por cima do riacho e, pelo rádio, as moneras da manhã informaram-nos que os macacos se dirigiam para a pequena cortada em que nos encontrávamos. Então sacámos as mochilas das costas e sentámo-nos, atentas, à espera de um salto na vegetação. Muitas vezes é assim, um anúncio de presença num mar de verde. Fixam-se as copas, ouve-se o vento, procura distinguir-se um abanão nas folhas. Dez minutos, quinze, até que, de repente, se avista um que já vem.

Nesse dia lá veio o primeiro, mas logo lhe deu para virar para sul e voltar a desaparecer. A única maneira de seguirmos tal direcção era pelo riacho, já que a água ia baixa e não atingia a altura das botas. Descemos as quatro o pequeno barranco e lá nos enfileirámos, procurando pisar sempre as rochas mais altas. E de princípio tudo bem, controlada a água. Lentamente, ao passo que ela permitia, fomos passando por zonas lindíssimas, uma visão da floresta que normalmente não nos toca ter. Por vezes o riacho alargava-se um pouco e as árvores em cima formavam abóbadas com lianas penduradas, lembravam histórias de “tarzans”, davam-me muita vontade de ter uma câmara à mão. Nesse dia não a levava. No total, e praticamente sem darmos por isso, seguimos dentro de água por três horas. Três divertidas horas. Fora a paisagem, para mim, o momento alto esteve no esforço da Taylor para subir a uma margem – a qual para ser atingida implicava trepar um barranco de barro com um metro de altura – ajudada pela Veronica, que lhe empurrava o rabo, gritando “ahora, ahora, dále Tay!”. Para no fim se estatelarem as duas, como seria de prever, e verem as botas e as calças encher-se de lama e água apodrecida. Depois disso quase valia tudo, ataque de riso generalizado.

Para terminar a aventura, num golpe de autodeterminação típico de mono, o grupo decidiu virar a sul. As moneras que se lixem para sair do rio e abrir caminho à catanada por entre os rebentos do bambu mais irritante do mundo. Muitas canas secas a estalarem debaixo dos pés, o sol directo, a transpiração a escorrer em linha pelas fontes. O desejo de não encontrar uma cobra pelo caminho… Até que, por fim, se avistou uma das fitas coloridas que vamos deixando nos caminhos, para nos guiar. “Laurel, chegámos a Laurel!” A alegria de encontrar um trilho só é comparável à que sentimos ao fim do dia, no regresso a casa, depois de fazer a última curva dos três quilómetros de caminho, naquele momento exacto em que se avista o monte de bromélias que antecede o portão do cies.

Eu gosto de dias assim, com novidades no percurso. Ontem, com a mesma combinação de compañeras, descobrimos um bambu novo (mas dos grandes, aqueles onde os monitos dormem e de que se alimentavam antes de começarem a secar) quase a cair para o Iguazú. Foi dificíl chegar, uma visão inesperada mas, não há que negar, uma paisagem brutal junto ao rio. Voltar a subir, mais uma vez, foi outra conversa. Fomos para oeste. Resolvi seguir um leito de riacho que vai seco por achar que teria menos impedimentos vegetais que a envolvente e – enfim – não é que estivesse enganada mas também não se tratava de uma autoestrada. O problema é que saía connosco, e pela primeira vez durante o calor da tarde, o nosso colega novo, Mike Myers. Sim, é mesmo o nome dele e também é verdade que, por uns dias, houve a expectativa que nos aparecesse o outro mais conhecido Mike Myers no meio da selva argentina (o que seria!), mas não. Infelizmente o Mike não parece estar em forma física, é um chubby de Saint Louis bastante estereotipado como a criança comedora de MacDonald’s toda a vida. Diz que não come vegetais, que não gosta. Só hambúrgueres e frango. Daí que raramente se junte para jantar connosco e, até agora, as suas refeições permaneçam um mistério para os demais. Gatorade, peanut butter à colher e barras de cereais foi tudo o que já o vi beber e comer. É um treino à força, este inicial. E acho que ontem a longa caminhada, seguida de toda uma tarde fora de trilho a descer até ao rio e depois voltar a subir, a modos que o arrasou. A cada passo que dávamos na subida podia ouvi-lo ofegar. Hoje, felizmente, a jefa deu-lhe dia livre para descansar. Só agora me apercebi da resistência que todas acabámos por ganhar ao longo dos meses, caminhar horas seguidas, ficar especada de pescoço torcido a olhar para o alto, subir, descer, trepar, já tudo parece perfeitamente normal. Plantas dos pés insensíveis, músculos feitos pedra ao fim do dia e sorrisos cansados na cara, tudo se pode somar e depois dividir. Todos lá chegaremos.

10 de janeiro de 2009

décimo oitavo

Hoje não me estendo muito mas, como diria a querida Mimi: olha meu amor, não é muito mas é de boa vontade!

Abano-me na cama de rede mais afastada da cozinha. O caderno dobrado no colo, a transpiração eterna na pele e, do rádio, uma alternância entre reggaeton e qualquer pirosada latino-romântica. Tudo está calmo. Uma cose a roupa destroçada pelo campo, outra olha o guia ornitológico da América do Sul como quem pensa em tudo menos aves. Na outra rede, uma terceira esparrama-se lendo Harry Potter e esforçando-se por não mexer um músculo. Qualquer coisa faz aquecer. No ar também não se sentem movimentos. Do cimo do telhado levantam-se ondas bruxuleantes, quase invisíveis, que me recordam por que já não aparecem por aqui os macacos. O reggaeton segue com o batuque a volume moderado. Alguns dos vizinho lagartos, de impressionante tamanho, serpenteiam devagar pelo jardim. Assim é este momento.

Fala-se de como a influência dos jesuítas em certa região da Bolívia fez manter, até hoje, uma tradição de música barroca com instrumentos criados pelos indígenas. Algo com o toque de estranheza que sempre têm as misturas – pelo menos à primeira vista. Mas, na verdade, o que é que com o tempo não se mistura? Guiada por Martin Page aprendi recentemente que as navegações portuguesas abriram em par as portas ao comércio internacional. Pode parecer básico, algo que me devia ter ficado da escola, mas a verdade é que só agora se pinta o quadro geral – ou talvez me dedique pela primeira vez a pensar o assunto em vez de decorar as frases dos livros para os testes. O caril da Índia possível por se terem levado picantes da América do Sul, o hábito do chá com bolos às cinco da tarde instituído por Catarina de Bragança na corte inglesa (chá esse vindo da China, de caravela, até Lisboa), tempura como técnica de cozinhar ensinada no Japão pelos portugueses. Tudo “very typical”. Tudo, apenas, exemplos de misturas. Para não falar em povos ibéricos, celtas, mouros e romanos. Sinto-me esmagada com tanto que temos, todos, para trás.

Os dias aqui já se sentem um pouco mais curtos. Em vez de sair às cinco e quarenta da manhã, já saímos às seis. Sim, grande alegria! Até a caminhada se faz mais animada. É interessante ver também as árvores de fruto de que se alimentam os macacos a serem substituídas umas pelas outras, à medida que eles (os frutos) amadurecem e secam. As diferentes áreas que os bichos vão preferindo em função disto mesmo. E o como agora passam tardes inteiras junto ao rio para se refrescarem com o ar menos quente. Gosto de ver o tempo a passar.

A este ponto já quase todos regressámos ao CIES. Turnos para cozinhar, para lavar, para usar o modem, acabaram-se as férias! Em breve, seguramente, se organizará o primeiro asado de 2009 e começa a avistar-se, ainda que, por enquanto, ao longe, o tempo de algumas despedidas. Porque gente vai, gente vem, é assim mesmo.

Tenho-me entretido também, sempre que posso, a filmar os macacos com uma câmara que trouxe de Lisboa. Com muita falta de arte, diga-se, mas lá vou tentando perceber como se faz a coisa. Quando souber como – e tiver tempo de antena na internet para tal – tento deixar aqui um vídeo.

Agora, como estou de folga, acho que vou ali dar um passeio às cataratas, que ainda as não vi desde que voltei e o tempo já se pôs bonito depois da tormenta de ontem.

¡hasta pronto!

5 de janeiro de 2009

décimo sétimo

nota: alguns problemas internéticos obrigaram-me a escrever este post num ponto de internet na vila, pelo que nao encontrei, no teclado, o til e o cê cedilhado; as minhas desculpas se tal dificultar a leitura (embora eu saiba que o leitor é versátil e deve bastante ao trabalho neuronal); assim que puder, corrijo-o no meu próprio computador; ¡saludos!

A Argentina recebeu-me fresca e muito tranquila. Esperava o calor irrespirável que fazia quando a deixei e, em vez disso, fui recebida com um suave tempo de primavera. Nem as cigaras se davam ao trabalho, na noite em que cheguei, de camisola ainda vestida. Nessa frescura da madrugada, o CIES escuro e quase vazio, silencioso, cheirei de novo este lugar. Está diferente. Perguntei à Jen. Nao achas que está diferente? Encolheu-me os ombros, disse que havia chovido muito nos dias anteriores. E que o seu nariz nao era bom. Tenho a certeza que está diferente.

Continua a surpreender-me como, vinda do Brasil, me sinto em casa deste lado da fronteira, onde se fala uma língua que nao é minha.
No aviao que me transportou do Rio de Janeiro para a Foz do Iguacu, calhou ficar sentada ao lado da única argentina do vôo. Que respirava com dificuldade, escondia a cara entre as maos e tremia muito. Até entao nao a sabia argentina, mas quando me agradeceu o copo de agua que lhe fui buscar com um atrapalhado “gracias”, foi quase como se me tivesse dito obrigada. Tive de imediato aquela sensacao que se tem ao encontrar um português no estrangeiro, esse saber que se partilha algo – nem que seja, neste caso, que a outra pessoa nao vai fazer caretas ao tomar mate (como verifiquei acontecer em cem por cento dos casos em casa).

Sós argentina? No, soy portuguesa. Ah... yo vivo en España hace veinte años. E assim comecaram três horas de conversa com a Iris, uma cinquentona a quem, passada a crise de claustrofobia, nao faltava boa disposicao. Falou-me da familia, dos amigos, das saudades que sente do seu país e, também, da Galiza que muito admira e visita. De Madrid, onde vive, nao gosta. Uma cidade grande é sempre uma cidade grande.

Dei-me conta que ambas falávamos um misto de "espanhol" e "argentino", mas que esse intermédio nao se assemelhava entre si. Eu nao conheco expressoes espanholas, uso as argentinas numa entoacao mais neutra. Ela falava com o encantador cantar argentino, mas soltava exclamacoes que aqui nunca oico. A cada "joder" eu até estremecia! Teve piada. Às tantas, virou para mim a capa do livro que levava no colo. A psiquiatria do pânico - truques para superar. Franziu o nariz e, em jeito de segredo, sussurrou: nao funciona.

No dia seguinte já as quatro caminhávamos floresta afora, em busca do grupo "Silver". Entardecia e a vontade era mais de conversar que de ser monera. Mas lá os encontrámos. E continuou-me a parecer que as coisas estavam diferentes. Nao havia mosquitos. Nao transpirávamos. Tudo cheirava maravilhosamente a madeira (há uma certa árvore que cuja casca tem um cheiro a dociado a flores) e, por vezes, à planta que tem odor a limao. Reapareceram alguns fungos. E a luz do entardecer está magnífica - ou talvez tenham sido os dez dias de inverno europeu que me alteraram os sentidos.

Além de tudo isto, passa-se que há vento. Aqui, normalmente, só há vento quando há tormenta e é daquele género que faz o mundo vir abaixo, as árvores dobrar-se até ao limite e, embora seja também fantástico, é muito difícil de disfrutar de dentro de casa. Assim, este novo tipo de vento, mais familiar, é uma boa surpresa. Tem laivos dos dias em que Portugal comeca a aquecer e nao podia cair melhor para rematar o meu curto inverno.

Trouxe vinho do porto para todas, "O Papalagui" para a Mica e uma pilha de outros livros para mim. Sei que a Clara trará filmes novos. Troquei também alguma roupa e passeio-me agora com modelitos que fogem às três toilettes anteriores. Dizem-me que é estranho. E trouxe fado, a pedido (obrigada Joao), bem como música pimba (sim, nao é mentira, foi-me pedida música pimba!). Cultura nao discriminatória e seu transporte além-mar, à boa maneira portuguesa.

O que me custa? As saudades de todos. Mais uma despedida, mais algumas caras compridas - embora menos lágrimas desta vez. Nao estar para assistir à tal primavera. Nao poder ver o mar quando quero. Perder bons filmes nos cinemas e aniversários a tempo e horas. Que nao seja época de laranjas e tangerinas aqui. Que o lume nao sirva para aquecer mas sim, apenas, para cozinhar carne. Apesar de tudo, uma conclusao tiro da minha estadia em Lisboa: adoro a minha casa, adoro estar à distância de um "vem cá ter", mas a cidade nao me trata bem. É intensa demais, agressiva de mais, impessoal demais. Falta-lhe tempo para ter tempo.

Chegada ao parque, respirei fundo e tranquilizei-me.

3 de janeiro de 2009

[comentário quase nada]

Bem, estou de volta.

Passou o interregno natalício, a curta luz de Lisboa no inverno e a estranha sensação de retornada.

Entrámos em 2009. Um feliz, a todos! :)

Amanha já cá volto para dizer coisas...

19 de dezembro de 2008

décimo sexto

O natal está à porta. Sem me aperceber, o tempo foi chegando de compras, trânsito e senhores gordos vestidos de vermelho. Mas, felizmente, onde estou não se sente o tal espírito. O calor é de Verão, os hábitos mantêm-se de floresta e de rio e a única pista que surge de algum acontecimento importante é a ausência de cada vez mais elementos cá em casa. Cozinhar para seis e não para onze faz alguma diferença. E, ao ritmo de um ou dois por dia, em breve seremos só as quatro. As últimas a partir.

Confesso que desde há muito não aprecio a época. A obrigatoriedade ainda mais acentuada que o verbo “comprar” assume durante o mês de Dezembro irrita-me. Este ano, no entanto, chegarei de longe. Não acredito em Deus mas levo uma imensa vontade de casa, de família e de ouvir falar português. Assumidamente sem dinheiro para presentes – uma que outra graça, pelo prazer de levar algo de um país diferente – sinto-me também liberta da parte feia da questão. Posso estar aqui tranquila, dedicar-me ao costume e fazer de conta que o mundo lá fora, por enquanto, não existe. Aproveito para perseguir macacos às seis da manhã, para nadar no rio quando há tempo e para ver o céu nocturno a que ainda não me habituei.

Daqui até casa demorarei mais de vinte e quatro horas. Uma boa parte delas serão passadas no aeroporto de São Paulo, esperando. Uma senhora seca. Por uma boa causa. :)

9 de dezembro de 2008

décimo quinto

Às vezes dão-me uns cheliques, umas fraquezas súbitas, cuja visita nunca é agradável. Isto desde que cheguei aqui. Começa por que me sinto certa manhã especialmente cansada, ou o calor da tarde me dilata as ideias, não sei. Os joelhos desatam a doer, os músculos viram gelatina, arrasto-me trilho acima, trilho abaixo com ganas de sentar-me a cada dois minutos, bebo toda a água que carrego numa só hora e, ao voltar a casa, queixam-se as têmporas. Momentos depois o estômago. E temos a festa armada para os dois dias seguintes.

Com pontaria certeira, tenho conseguido que a coisa se dê num dos dias livres a que tenho direito. Isto de trabalhar por turnos e obrigar a que outro nos substitua em caso de ausência é um stress acrescido ao problema em si. Passar mal uma manhã pode ter como consequência que uma das outras perda a folga e tenha que trabalhar nove dias seguidos. Assim, faz-se tudo o que se pode para levantar o rabinho e pôr as pernas a mexer. É que nove dias custam, principalmente agora que mudámos outra vez de grupo de estudo e estes animais têm território a três quilómetros daqui. Pensar-se-á que três quilómetros não é assim tanto, que umas corridas domingueiras em Monsanto rematam lindamente a questão e sem qualquer drama. Pois será. Informo que começar o dia às cinco e meia da manhã, ainda noite escura, palmilhando esses malditos quilómetros na selva com as galochas não tem a mesma piada. Principalmente porque, ao chegar, há então que começar a seguir-se os animais. Ou seja, o dia vai começar ali, três quartos de hora depois. E, claro, a ideia de o terminar no pico dos 35 graus mais húmidos que conheci e ter que suar todo esse caminho de volta é exasperante.

O lado bom deste novo lugar (com alívio continuam a encontrar-se lados bons) é o salto Arrechea, que se encontra no final do caminho. Um salto bem pequeno tendo em conta a dimensão das águas que caem por aqui mas, por isso mesmo, mais acessível. Uma plataforma de madeira montada na parte superior permite-nos atravessar o riacho mesmo onde a água perde o chão. Encostados ao varandim vemos, num enquadramento de fotografia, a água que cai lá em baixo, as copas verdes que a rodeiam, ao fundo uma língua castanha de rio e, ainda mais além, de novo o verde brasileiro. Palmeiras altas a meio caminho ajudam a organizar espacialmente as ideias. É um postal vivo, tanto como a primeira visão do conjunto das imensas cataratas ou da garganta del diablo. Aqui, no entanto, temos o extra de, lá em baixo, se formar uma piscina natural. E a sensação de entrar nessa água fria (bem mais fria que no rio) e se ficar envolto em vegetação, de olhar extasiado a água que tropeça lá do alto e se precipita, as rochas negras em que ela bate cá em baixo, de sentir um vento morno na pele, essa sensação, é especial. Quem não desejou estar, por uns momentos, dentro de um anúncio da "Fa" ou da "Timotei"? Aqui está a oportunidade. Confirma-se, bastante agradável!

Portanto, para minimizar o frete dos seis quilómetros diários (extra aos percorridos realmente a trabalhar), tenho que será uma boa ideia passar a levar umas sandochas e, ora ficar depois da labuta, ora ir mais cedo e mandar umas mergulhaças antes de começar. Só para animar a malta. Amanhã tratarei de pôr o plano em prática.

Para o dia sete, esse especial pelo qual recebi alguns simpáticos comentários no último post (que agradeço), havia planos de grande festaça. Três despedidas a somarem-se aos vinte e sete da je. Concordou-se em organizar o asado para a noite de seis. Na tarde desse dia, quem pudesse iria passear a um antigo parque de campismo que há dentro do Parque e onde, aparentemente, também se tomam boas e pouco turísticas banhocas – como se observa, o calor aperta com força e nada tem mais importância do que o acesso à água.

Infelizmente esse dia passei-o na cama. Um dos tais. Dormi toda a tarde, na esperança de exorcizar os demónios virais. Pela noite o ar agitava-se no vaivém de gente entre a cozinha e o telheiro, trazendo e levando, preparando, ocupando-se. Consegui ir e comer um pouco do cuscuz vegetariano cozinhado para evitar a carne da ocasião. Depois, obedecendo a novo queixume estomacal, regressei à cama. Ouvi-os rir e conversar lá fora, enrolei-me, dediquei-me por momentos a Saramago, pu-lo de lado, fixei por baixo as traves de madeira, o colchão da Mica – abóbada nocturna – empurrei-o com os pés para passar o tempo enquanto a pança me ameaçava “pára quieta!”. E nisto estava quando, apanhando-me desprevenida, um exército de sorridentes regalos se me apresentou enfilado no quarto (o tal de dois por três). Não me surpreendem as pessoas muitas vezes mas esta foi uma delas.

O cumpleaños propriamente dito, ou seja, o dia seguinte, já teve direito a praia – que o físico andava melhor. Apepú, que os mais atentos já conhecerão. Tosta de um lado, tosta do outro, mergulha daqui, nada para ali e dá de comer às "bariuis", tadinhas, que umas picadelas não fazem mal a ninguém e se te dão comichões de morte durante uma semana, olha, azar, é o que temos!

À noite, havia ainda que soprar a vela deixada por acender na noite anterior. Todos concordaram em preparar comida e fazer piquenique em Arrechea – sim, a loucura dos três quilómetros para cá e para lá! Fascinar-se com a natureza é assim, causa delírios colectivos que resultam em carregar bolos, garrafas de vinho, saladas, pão, carne, sendero Macuco abaixo. As moneras do turno da tarde aguardavam no salto, impacientes, descrentes na nossa mobilização e geladas com a espera depois de um banho quase nocturno. Nunca o pão com chouriço lhes soube tão bem. A lua estava pela metade. Meia lua iluminando onze bocas cansadas, esfomeadas, divertidas, partilhando o vinho, gritando pela maionese… Até que por fim se cantou, em português (!), quatro versos de “parabéns a você” – um esforço que muito apreciei – e se atacou, alarvemente, uma tal de chocotorta. Quando digo atacar, quero dizer mãos cheias de chocolate e dulce de leche, uma ronda, duas rondas, três... Para ganhar energias para o caminho, o infindável caminho de volta.

3 de dezembro de 2008

décimo quarto

Dia de Acção de Graças. Mais um primeiro. Na quarta quinta-feira de Novembro celebra-se o dia em que colonos ingleses e indígenas norte-americanos partilharam comida - o que dificilmente terá acontecido, mas mantenha-se o cinismo necessário ao bom funcionamento do sistema. Resulta o dia num género de Natal sem prendas, em que a família se reúne para agradecer e comer. Não me parece mal.

Para as amazing trata-se de uma data importante e, por tal facto, decretou-se dia livre a tal quinta-feira. Mais, associando a festa ao facto de termos terminado as focais mais cedo que o previsto, foram-nos concedidos não um, mas uns muito desejados quatro dias livres! E assim nasceu a ideia de ir armar o estaminé noutra selva que não esta. À primeira vista parece, sem dúvida, estranho que tiremos férias da floresta na floresta do lado. É quase como sair de casa e tocar à campainha do vizinho da frente, ora com licença aqui estou, com certeza faça favor. E porque não? O espaço será mais ou menos familiar, os ângulos conhecidos, as simetrias automáticas, mas o recheio será diferente. A vista não se repetirá. E o que se fará em casa do vizinho, nalguns dias de férias, será aquilo que se faria na própria casa? Estou tentada a arriscar um “não”.

Não sei bem a quantos quilómetros fica o parque Urugua-í das cataratas. Seguramente não alcança os cem. Chega-se pela estrada que passa por Wanda e vai para Andresito e, à partida, estranha-se um pouco que a recepção do lugar, a própria casa dos guardaparques, esteja plantada logo à beira do asfalto, à mercê de camionetas e buzinões. Mas, assim que saímos e o veículo se vai, logo se entende que agitação não mora ali. A estrada estende-se num abandono de espaço aberto rasgado na selva. O calor aperta, só as cigarras bulem. Um rapaz novo que certamente goza a boa da sesta no alpendre, levanta-se para nos receber, indica o espaço para acampar e depressa se vai – talvez de volta ao merecido descanso. E então há uma pausa no ar. Entreolhamo-nos. Outro lugar. Há sempre uma pausa quando se chega e se largam os sacos, quando se olha em volta e se avalia a casa do vizinho. Este vizinho tem árvores um pouco mais altas que as nossas, menos entraves arbustivos, um belíssimo espaço de sombra para as tendas, um riacho logo em frente, muitas moscas mas não mosquitos e um silêncio igual ao nosso mas que, em casa, não conseguimos ouvir. Não é um camping, é um espaço na selva onde se pode sossegar. Dormir que nem sardinhas enlatadas dentro de uma tenda emprestada, se assim o desejarmos. Porque não? De facto, o quarto de dois por três no CIES tem essa inconveniência de ainda nos permitir respirar individualmente. Acampadas, nenhuma se pode mexer na tenda sem espetar um dedo no olho de alguém ou roubar cinco preciosos centímetros da esteira do lado. Mas não, não foi pelo incómodo que fomos. Fomos pelo prazer de sair – que o permanecer ameaçava provocar-me tiques nervosos – e, na verdade, o tempo não nos permitiu ir mais longe. Tudo aqui tem tal dimensão que deixar a selva para trás tardaria bem mais que o desejado. Mar para que te quero!, vejo-te a uns inquietos 600 quilómetros de distância. Uff… Formulo pensamentos reciclados sobre a santa terrinha. Que lindo e que fácil ser-se pequeno! Não há preto nem branco, bem sei, mas, além da escala cinza, as cores caem sempre bem.

Não sei se me encantou mais mergulhar na água fresca pela manhã ou hipnotizar-me com o fogo contra as silhuetas nocturnas das árvores. Pode ser que tenha preferido as borboletas às centenas que nos rodeavam à entrada da ribeira. Ou o som da floresta a entoar melodias noite fora. Estou por decidir.

Viajar é muito falar com as pessoas. Ter paciência, dar tempo para vir o que é possível que venha. Aceitar sem esperar e dar com essa mesma inocente surpresa. Senão, é um pouco como passar por cima flutuando. Quanto mais tempo estou aqui mais me apercebo do quanto tarda conhecer um local, do quanto é preciso entrar no ritmo, assumir os hábitos. Mas isto virá talvez a outro caso, não a este.

Certa noite, um dos guardaparques, Rolando de seu nome (contive a gargalhada amigo gandamaluko, contive mesmo uma enorme gargalhada), enfim, sabendo o senhor do nosso desejo de conseguir ver um tapir, fez-nos o jeitinho. Acontece que, na selva, toda a fauna se pela por um bom cloreto de sódio, recurso escasso e fisiologicamente importante. Assim, sabendo de um específico local onde passam, por vezes, tapires, basta deitar sal na terra ao entardecer e, nessa mesma noite, um dos mais caricatos animais que já vi passará para uma visita. Assim foi. Tomadas pela expectativa, guiadas pelo Roli, atravessámos a estrada e entrámos alguns metros no breu da selva cerrada. Ali estava. Iluminada pelo foco, uma fêmea lambia os beiços que ia molhando na lama. O focinho, uma probóscide com manias de grandeza, movia-se comicamente para cima e para baixo. Do tamanho de uma vaca, um curioso aspecto de algo que não logrou ser elefante e uma disposição tranquila, ali se deixou ficar, exibindo os movimentos lentos e despreocupados de quem está em casa. E nós calados, imóveis, respirando devagar para não fazer deslocar moléculas, como crianças que espreitam para onde não devem e se compenetram em gravar as imagens na memória. O animal quase não fazia ruído. Enorme e silencioso, olhava-nos de vez em quando e logo voltava a baixar o focinho para o solo. Insectos contestavam, sapos e rãs barafustavam, algumas formigas insistiam em morder-me, mas a tapir estava de actriz principal, as luzes apontavam-se-lhe e o público só não aplaudia porque não podia. Creio que o adjectivo "único" não podia ser melhor empregue para o momento.

Num dos outros dias, passeando pelo trilho dos tapires à luz do sol, demos, sem querer, por um som para o qual temos já tímpanos bem afinados: monitos saltando. Lá estavam. Foi interessante perceber o quão habituados os nossos grupos estão à moléstia de investigadores que não descolam. Muito antes que nos tentássemos aproximar, os animais tinham já passado a uma área mais interior e ficámos a ouvi-los chilrear à distância. Somos umas mimadas, de facto.

Quanto ao dia de acção de graças em si mesmo, foi tal qual como os outros. Ler, dormir, nadar, socializar q.b., aquecer água para o mate, gritar impropérios às moscas… Mas, à noite, o rastafari de serviço – única alma acampante além das nossas, criatura com relação muito própria com o calendário maia (!) – decidiu ser uma boa ideia fazer uma espécie de pão fininho, como o “nan” dos indianos. Uma excelente sugestão. Juntámo-nos no processo, simbolizando a tal partilha de comida entre indígenas e colonizadores - aposto que a nossa foi mais agradável. Amassámos, amassámos e amassámos. Sobre a fogueira grande havia uma pedra plana elevada que permitia espalhar as brasas por baixo. Assim fomos dispondo o pão e cozendo a massa que havíamos espalmado e salpicado de especiarias. [muy rico diria eu, mas isso era se me fosse armar em emigra catita]

Devidamente descontraídas, talvez até preenchidas, regressámos às cataratas um pouco a contragosto, à boleia de uns guardas conhecidos que tinham ido a uma reunião no Urugua-í. Sentei-me na caixa aberta da carrinha e, com selva dos dois lados, sob um sol subtropical que àquela hora já não ia forte, vi o pó da estrada 101 virar uma nuvem laranja que se arrastava atrás de nós. À nossa passagem borravam-se árvores, casas, submergiam-se pessoas, afogava-se o interminável verde. Acelerando. Foi assim que o guardei, um tremer de rodas na terra batida, um calor de luz nos braços e na cara, um entre cá e lá que não queria que terminasse e uma nuvem que tudo ia engolindo. Um filme tornando-se real.