Bom, mas voltemos à Noruega. A senhora que trata de algumas limpezas e organização aqui no CIES contou-me que achou deveras estranha a chegada de uma norueguesa vinda do Brasil (porque lá isso sabiam), que falava português, tinha um aspecto muito pouco gringo e, além do mais, se dirigia a ela num castelhano de forte sotaque espanhol – julgo que aqui basta que se diga “tu” em vez de “vos” para logo se ser catalogado. Dizem-me agora, em pose de assunto sério, com pancadinha nas costas e algum orgulho, que já estou melhor. "Se te cambia el acento". Que seria uma vergonha andar por aqui a falar como os espanhóis! Enfim, uma risota. Parece que, na sede do CIES, ainda há muita gente que se refere à “norueguesa”. Não sei se lhes tire essa ilusão… Ainda não decidi se hei-de ser a portuguesa, a brasileira, a espanhola ou a norueguesa.
Os dias com os monos complicam-se. A Annie anda a ficar mais séria com o nosso treino porque o stress nova-iorquino recomeça a subir-lhe à cabeça. Portanto, temos que tratar de aprender rapidinho o etograma (lista de comportamentos que interessa registar) e de deixar de baralhar umas caras macacas com as outras. Entender, de uma vez por todas, que o Trucho não é o Jesus e que a Chicca e a Estela, ainda que irmãs, se podem distinguir através de uma mancha na bochecha direita. Como se nos escapa tão conspícua característica, de facto, não sei! O que vale é que, apesar de o grupo ser constituído por vinte e sete animais, só vamos analisar os adultos. Quatro machos e sete fêmeas. Alessandro, dominante de serviço, distingue-se pelo porte altivo, atitude blazé e olhos demasiado juntos. Sempre que me mira de frente tenho a nítida sensação de que é vesgo, o que não se coaduna muito bem com a posição que ocupa na hierarquia. Cá no meu mundo, ora pois! Mas gosto dele, é tranquilo e transmite autoridade.
A fêmea dominante chama-se Thelma, tem a pelagem muito escura, uns olhinhos meio asiáticos e o nariz achatado. Apesar de ser dominante, não é aquela que tem mais crias. Na verdade, é a Clara, criatura deveras subordinada, que tem mostrado ser a grande parideira do grupo. O que me intriga. Supõe-se que uma alta posição social se correlacione directamente com o fitness do animal. Ou seja, o facto de ter um elevado status deveria fazer com que os seus genes fossem transmitidos à geração seguinte com maior representatividade do que os dos outros indivíduos do grupo. Sei que quantidade não é sinónimo de qualidade e que os filhos da Clara podem vir a ser uns franganotes que mal se consigam reproduzir eles próprios. Pode ser… Mas se alguns já estão crescidinhos e sem aparentes problemas, bom, não sei o que pensar.
Ontem à tarde o Jesus e a Yoli decidiram cortejar-se. E, como lhes foge o pezinho para o exibicionismo, acharam por bem fazê-lo no “paseo superior”, à vista de toda e qualquer almita turista. Que delirou, pois que os bichos guincham e fazem caretas um ao outro, ladeando a cabeça com denguice para a direita e a esquerda. Tem muita graça. A maior parte dos turistas, para dizer a verdade, não se apercebe de que assiste a um comportamento menos vulgar. Mas gostam na mesma. Entusiasmam-se. Chegam a tornar-se difíceis de controlar. A cena tende a começar com um par de argentinas cinquentonas, gorduchas e bem oxigenadas, a exclamar a plenos pulmões: ai, ai, mira, mira los monitos!! Ao que se segue uma tropelia humana, acercando-se dos bichos. Uuhhhhh…mira… que hermosos! Y la cria con su mamá…. Re lindo!! Em questão de segundos temos um aglomerado de trinta pessoas, de diversas idades e aspectos, em aparente adoração aos macacos. E digo aparente porque – e isto é algo que me surpreende sempre – tão depressa chegam como, de repente, se desmaterializam. Como se a observação tivesse prazo de validade, o suficiente para levantarem bem alto, acima das cabeças, um número relevante de máquinas fotográficas que disparam com sofreguidão. E então seguem o seu caminho, até ao entretenimento seguinte. Um tucano. Um coati. Lo que sea. Felizmente.
Para seguir monitos, há-que ter costela alentejana. Pouca pressa, mais olho para ver que perna para caminhar. Um dos erros que cometíamos amiúde, de início, era get ahead of the monkeys. Sai-me isto em inglês porque a frequência com que ocorria era tal, que a frase se tornou quase uma expressão do quotidiano entre nós. Agora já aprendemos. Eu e a Mica, numa atitude claramente mais latina, deixamo-nos ficar até à última, de preferência espojadas e com borboletas mil a pousarem-nos no nariz, nas mãos e na roupa, até termos a certeza absoluta de que os macacos estão em movimento. Aí, então, damos corda aos sapatos. Uma espécie de jogging em perseguição amigável. Corridinhas ocasionais. Mas funciona. Quando no campo e ao alcance da voz, comunicamos umas com as outras através de “ops”. Um “op” gritado para o ar significa “estou aqui”. Dois “ops” dizem “estou aqui e tenho macacos!”. E três “ops” pedem à outra pessoa que largue o que está a fazer e venha ao nosso encontro. Claro que temos rádios, mas assim poupa-se energia (além do que nem sempre nos organizamos com as cargas dos mesmos e há dias em que, pela escura e remelenta madrugada, nos apercebemos que não há baterias carregadas). À conta deste original modo de comunicação, tive um episódio caricato – também nos primeiros dias de macaquice. Hoje sei que não posso pôr-me aos “ops” em zonas onde haja turistas. Just too embaracing… Mas, naquela nervoseira inicial, consegui soltar um sonoro “op” à passagem do comboio carregadinho de pessoas que voltavam da Garganta del Diablo. Qual não é o meu choque quando me apercebo que, nas minhas costas, uma resma de gente me respondia com o grito do Tarzan! Virei-me e vesti um ar duro mas o que queria mesmo era desmanchar-me a rir. Visualize-se o modelito completo: galochas até ao joelho, calças enfiadas dentro das mesmas, típica camisa axadrezada para evitar picadas de mosquito, colete cheio de bolsos de onde saem rádios, bússolas, blocos de notas e afins penduricalhos e, para terminar (o ex-libris), lenço na cabeça! É que carracinhas e ácaros no corpo ainda vá, tudo bem, agora bichezas no cabelo eu cá dispenso. E como as palas dos chapéus não deixam olhar para cima, para as copas das árvores, muitas de nós optam pelo lenço. O que, convenhamos, acrescenta caricatura ao figurino. Nesse mesmo dia, uns minutos depois, a Mica saiu afogueada de uma mancha de floresta directamente para uma zona de paseo onde as pessoas vão comprar viagens de barco e, dirigindo-se ao primeiro que passava - sem, no entanto, deixar de buscar constantemente os macacos na vegetação – soltou-lhe um aflito: donde estoy? [Porque andar no meio das árvores e arbustos pode mesmo desorientar]. O senhor, ao que parece, assustou-se. Eu também me assustaria se um animal tão grande me saltasse de dentro da vegetação. Respondeu-lhe, a medo: en el Parque… Creio que lhe deve ter associado um qualquer desequilíbrio mental. E ela, em vez de insistir ou se estender em explicações, encolheu ombros e voltou a meter-se na floresta. Ainda agora dou gargalhadas ao imaginar a cena.
Portanto, como se vê, isto é divertido. Só com a chuva é que ainda não me dou bem.
Deixo-vos alguns dos meus amigos.=)













